Estudo da Abrafarma revela falhas em grande parte dos anúncios de emagrecedores na plataforma de e-commerce.
Uma análise realizada pela Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) detectou que 71% dos produtos anunciados no Mercado Livre com foco em emagrecimento exibem pelo menos uma irregularidade. As falhas incluem desde descumprimento de normas sanitárias até violações dos termos de uso do próprio marketplace. O levantamento, que analisou 2.624 produtos em 7.067 anúncios coletados entre 15 e 19 de junho, representa um contraponto de redes farmacêuticas tradicionais às vendas online.
Procurado, o Mercado Livre afirmou que não valida metodologias de terceiros, mas reiterou que anúncios que infringirem suas regras serão removidos. A empresa ressaltou que medicamentos vendidos em farmácias na plataforma são regularizados e possuem certificações da Anvisa, e que a segurança do consumidor é prioridade, com investimentos contínuos em moderação.
As informações divulgadas pela Abrafarma chegam a público após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) notificar o Mercado Livre nesta semana. A agência solicitou explicações sobre como a plataforma garante a conformidade sanitária na venda de medicamentos, especialmente após o anúncio de que passaria a comercializar itens que exigem receita médica.
Foco em Suplementos e Promessas Enganosas
Do total de itens analisados, 1.865 apresentaram irregularidades, sendo que 953 acumularam duas ou mais infrações. A pesquisa considerou apenas o texto e as avaliações públicas dos anúncios, sem realizar compra ou testes laboratoriais. Os suplementos alimentares dominaram a análise, representando 90% dos produtos, seguidos por medicamentos, cremes, adesivos e até produtos veterinários com substâncias de uso humano.
A principal constatação do relatório é que as irregularidades se concentram nos suplementos, que muitas vezes assumem a aparência de medicamentos ao fazer promessas de cura ou perda de peso expressiva e ao se apropriarem de marcas conhecidas, como Ozempic e Mounjaro. A infração mais comum foi a promessa terapêutica, com 1.186 ocorrências. Exemplos incluem anúncios que garantem a perda de 30kg em 30 dias ou que se apresentam como “remédio para herpes de pele” ou “proteção e prevenção do câncer de próstata”.
Segundo as normas da Anvisa, suplementos alimentares não podem alegar finalidade terapêutica ou curativa. Tais promessas podem induzir o consumidor ao erro, levando-o a adiar ou substituir tratamentos com eficácia comprovada. A apropriação de marcas também foi recorrente, com suplementos utilizando variações de nomes como “Monjauro de pobre” ou se promovendo como “+ forte q Mounjaro”, em referência aos medicamentos injetáveis que exigem receita médica.
Próximos Passos e Contexto Regulatório
A Abrafarma informou que utilizará os dados da pesquisa para acionar a Anvisa nos próximos dias. A associação já havia enviado um ofício à agência na semana anterior questionando a venda de medicamentos com retenção de receita pelo Mercado Livre, antes mesmo da notificação oficial desta segunda-feira.
A situação se intensifica com a recente notificação da Anvisa, que exige que o Mercado Livre detalhe como sua operação cumpre as regras sanitárias e apresente documentos que comprovem a regularidade do serviço. O episódio reforça o debate sobre a regulamentação e fiscalização de produtos de saúde comercializados em plataformas de e-commerce.
