Ativistas interrompem evento dos EUA na Conferência Internacional de Aids no Rio
Gritos e apitos ecoaram durante um evento promovido pelo governo dos Estados Unidos na Conferência Internacional de Aids, realizada neste domingo (26) no Rio de Janeiro. A interrupção ocorreu no momento em que o coordenador interino de Aids global dos EUA, Jeff Graham, apresentava a nova “America First Global Health Strategy”. Ativistas tomaram o microfone, gritando “vocês mentem, pessoas morrem” e exigindo a restauração do Pepfar (Plano de Emergência do Presidente dos EUA para o Alívio da Aids).
Asia Russell, da organização HealthGAP, discursou após tomar a palavra, afirmando que há meses existe uma emergência de saúde pública devido às interrupções do governo americano nos programas do Pepfar e na ajuda global de saúde. “Não vamos permitir que nossas comunidades sejam apagadas pela sua agenda anticrescimento, anti-LGBTQ e antiparticipação”, declarou Russell, expondo a tensão que se seguiu.
Contradições na Política de Aids dos EUA
A controvérsia ganhou corpo quando Rebecca Bunnell, vice-coordenadora da implementação do Pepfar, respondeu a questionamentos sobre a exclusão de “populações-chave” — como trabalhadoras sexuais, homens que fazem sexo com homens e usuários de drogas injetáveis, grupos de maior risco de HIV — da nova estratégia americana, que agora foca na prevenção da transmissão de mãe para bebê. “Não podemos esquecer nenhum grupo, porque se esquecermos, vamos fracassar”, admitiu Bunnell. “Não conseguiremos deter a epidemia se não tivermos serviços para todas as pessoas em risco.”
Para os ativistas, a declaração de Bunnell evidenciou uma contradição fundamental na política atual: o governo que prioriza um recorte restrito de beneficiários reconhece que essa abordagem compromete o objetivo de conter o HIV. Essa fala surge uma semana após a divulgação do Pepfar Pulse Study, que mediu o impacto das mudanças promovidas pelo governo Donald Trump no programa. O estudo identificou 1.714 unidades de serviço de HIV fechadas globalmente, com mais de mil sendo estabelecimentos públicos de saúde, e apontou que mais de 21% dos parceiros que ofereciam tratamento de HIV suspenderam permanentemente ao menos uma atividade clínica.
Memorandos de Entendimento e Críticas
Temitope Ilori, diretora-geral da Agência Nacional de Controle da Aids da Nigéria, confirmou que a nova política interrompeu programas voltados para populações vulneráveis em seu país, embora alguns tenham sido absorvidos pelo governo nigeriano. Segundo ativistas, parte do modelo americano se baseia em memorandos de entendimento (MoU) bilaterais, que prometem “propriedade do país” e “autossuficiência” na resposta à Aids. Russell criticou duramente esses acordos, chamando-os de “coercitivos” e acusando os EUA de tentarem extrair recursos minerais e dados.
Jeff Graham negou qualquer vínculo entre os memorandos e a exploração de minerais, afirmando que não há menção a isso nos documentos. No entanto, alguns acordos de saúde foram assinados paralelamente a acordos minerais com os mesmos países, e um memorando com a Zâmbia teria fracassado devido a divergências sobre o acesso dos EUA a minerais. Todos os memorandos preveem cofinanciamento, como no caso da Nigéria, onde o governo local investe US$ 3 bilhões contra US$ 2 bilhões dos EUA.
Graham reconheceu que os memorandos são “não vinculantes”, mas alertou que o não cumprimento das promessas de cofinanciamento pelos países parceiros levará a uma reavaliação. Ele defendeu o modelo de coinvestimento como positivo, argumentando que a capacidade dos países de financiar suas próprias respostas de saúde é, em última análise, um avanço. Para auxiliar em eventuais dificuldades durante a transição para a autossuficiência, Graham mencionou a existência de um fundo de resiliência de transição como rede de apoio.
As informações foram reunidas a partir de declarações e eventos ocorridos durante a Conferência Internacional de Aids no Rio de Janeiro.
