A permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, consolidada com a obtenção do green card, tem impulsionado comparações de sua atuação com a de proeminentes dissidentes pró-democracia que desafiaram regimes autoritários em seus países. Figuras como Alexei Navalny, María Corina Machado, Yoani Sánchez e Aung San Suu Kyi são frequentemente mencionadas em paralelo, levantando debates sobre a natureza de suas denúncias e a busca por proteção internacional. Desde sua decisão de residir nos EUA em março de 2025, o ex-deputado tem focado em denunciar no exterior o que considera perseguição política no Brasil e em advogar por sanções contra membros do Supremo Tribunal Federal (STF) por atuações vistas como arbitrárias. As informações foram reunidas a partir de análises de especialistas e reportagens sobre o tema.Pontos de convergência e divergência na trajetória
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo identificam pontos de convergência entre a postura de Eduardo Bolsonaro e a de dissidentes internacionais, especialmente na estratégia de internacionalizar conflitos políticos. A busca por ampliar o custo diplomático das ações governamentais e o uso de garantias estrangeiras como proteção contra o judiciário local são táticas compartilhadas. A comparação se dá pela exibição no exterior de supostas violações de direitos e pela reivindicação de ser alvo de perseguição política, alinhando-se a figuras como o artista Ai Weiwei, crítico da ditadura chinesa, e a jornalista cubana Yoani Sánchez, que relatou a vida sob o regime dos Castro. A busca por sanções estrangeiras também ecoa a ação de dissidentes como Alexei Navalny, opositor de Vladimir Putin, que defenderam sanções contra oligarcas russos.
No entanto, diferenças cruciais marcam essa equiparação. Diferentemente de casos como o de Navalny, María Corina Machado ou Aung San Suu Kyi, nenhuma corte internacional reconheceu formalmente as medidas contra Eduardo Bolsonaro como violações de direitos humanos. A concessão do green card, e não de asilo político, corrobora essa ausência de reconhecimento formal de perseguição. Além disso, a associação permanente de Eduardo Bolsonaro ao ex-presidente Jair Bolsonaro o posiciona mais como um defensor do pai do que de uma causa ampla de liberdades civis, segundo o cientista político Adriano Gianturco. Alexandre Bandeira, da ESPM, complementa que o Brasil, apesar de seus problemas, ainda é uma democracia, e a atuação de Bolsonaro está mais ligada a disputas internas com o STF do que ao enfrentamento de um regime autoritário consolidado.
Green card como sinalização política
A obtenção do green card por Eduardo Bolsonaro, embora juridicamente não equivalente a asilo político, carrega um forte peso simbólico e político. Segundo o estrategista internacional Cezar Roedel, a concessão da residência permanente, uma decisão soberana dos EUA, é interpretada por muitos como um sinal de acolhimento institucional. Essa mensagem fortalece a narrativa de seus apoiadores sobre a busca por proteção contra uma suposta perseguição política. A residência permanente, embora dificulte a extradição, não impede automaticamente pedidos nesse sentido nem confere imunidade jurídica.
A distinção fundamental reside no reconhecimento internacional. Dissidentes históricos como Aung San Suu Kyi, María Corina Machado e Alexei Navalny obtiveram respaldo de organizações de direitos humanos, tribunais regionais e relatores da ONU, que concluíram, em vários graus, pela violação de direitos políticos, garantias processuais ou liberdades civis. Suu Kyi, por exemplo, recebeu o Nobel da Paz e teve suas prisões questionadas pelo Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenção Arbitrária. Machado também foi agraciada com o Nobel da Paz. Navalny teve decisões favoráveis na Corte Europeia de Direitos Humanos. O caso de Eduardo Bolsonaro ainda não alcançou esse nível de reconhecimento formal por organismos internacionais.
