Jovem relata quase perda de pulmão após uso de narguilé e cigarro eletrônico
Jovem relata quase perda de pulmão após uso de narguilé e cigarro eletrônico

Jovem relata quase perda de pulmão após uso de narguilé e cigarro eletrônico

A busca por prazeres sociais na adolescência pode ter consequências devastadoras para a saúde pulmonar. Ariane Lima Correia, hoje com 26 anos, vivenciou essa dura realidade ao desenvolver um quadro de saúde grave, que a levou a quase perder parte de um pulmão, após anos de consumo social de narguilé e cigarros eletrônicos. O que […]

Resumo

A busca por prazeres sociais na adolescência pode ter consequências devastadoras para a saúde pulmonar. Ariane Lima Correia, hoje com 26 anos, vivenciou essa dura realidade ao desenvolver um quadro de saúde grave, que a levou a quase perder parte de um pulmão, após anos de consumo social de narguilé e cigarros eletrônicos. O que começou como uma atividade comum em festas com amigos, tornou-se um pesadelo que a acompanha até hoje.

A empreendedora Ariane Lima Correia iniciou seu contato com o narguilé aos 16 anos, em encontros sociais. A prática era frequente entre seu círculo de amigos, com sessões que se estendiam até que os efeitos da nicotina e outras substâncias se manifestassem, causando tontura e queda de pressão. Mais tarde, o cigarro eletrônico se somou a essa rotina, com o consumo concentrado principalmente nos fins de semana e em eventos sociais. Embora não fumasse em casa, a prática se intensificava fora dela.

Ariane faz parte de uma geração que viu no narguilé uma porta de entrada para o tabaco e a nicotina, e que posteriormente acompanhou a rápida expansão dos vapes entre os jovens. Neste contexto, médicos alertam que o consumo social ou restrito a fins de semana também representa riscos significativos para a saúde, conforme observado no caso de Ariane.

Os primeiros sinais de alerta surgiram em 2023, com episódios recorrentes de tosse seca, febre e dor nas costas. Os sintomas, que melhoravam temporariamente com medicação, logo retornavam. Em julho do mesmo ano, o quadro se agravou. Uma mancha detectada em seu pulmão levou a uma investigação médica que considerou pneumonia e até câncer. Os antibióticos prescritos não surtiram o efeito esperado, e Ariane foi internada, permanecendo hospitalizada por 45 dias. Durante esse período, os médicos descreveram seus pulmões como tendo a aparência de uma pessoa de 40 anos que fumou a vida inteira. As cavitações em seu pulmão, conhecidas como “pulmão de pipoca”, foram tão severas que a remoção de parte do seu pulmão superior esquerdo chegou a ser cogitada. Após essa experiência, Ariane decidiu parar de fumar.

Riscos do consumo social e do narguilé

Ingrid Higashi, pneumologista, enfatiza que mesmo o fumo esporádico expõe as vias aéreas e os alvéolos a substâncias irritantes e tóxicas. No curto prazo, os efeitos podem incluir tosse, catarro, chiado e falta de ar. A exposição repetida pode desencadear processos inflamatórios e alterações pulmonares permanentes. Um equívoco comum é acreditar que a água no narguilé filtra as toxinas; segundo Luiz Felipe Natel Kugler Mendes, pneumologista, ela apenas reduz a temperatura da fumaça, mas não elimina substâncias nocivas. Além disso, a combustão do carvão utilizado para aquecer o tabaco libera monóxido de carbono, material particulado e outras toxinas, que comprometem o transporte de oxigênio no sangue.

Novas infecções e o impacto do cigarro eletrônico

Em janeiro de 2024, Ariane ainda lidava com a tosse seca persistente. No mês seguinte, uma nova internação e uma tomografia revelaram a necessidade de investigar tuberculose, posteriormente confirmada. A doença veio acompanhada de uma perda de peso drástica, com 10 kg em um mês e 7 kg em uma semana. O tratamento inicial exigia nove comprimidos diários e chegou a causar desmaios. Mendes explica que a tuberculose pode gerar cavitações pulmonares, enquanto o tabagismo crônico pode levar a bronquite crônica, enfisema e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC).

O pesadelo de Ariane não terminou aí. No final de janeiro de 2025, a tosse retornou, acompanhada de dor intensa no peito e nas costas, além de falta de ar. A jovem relatou perda de 18 kg desde o início de seus problemas de saúde. Novas investigações, incluindo biópsias, identificaram uma micobactéria diferente da tuberculose, a Mycobacterium avium, para a qual iniciou um novo tratamento com duração prevista de pelo menos um ano e oito meses. Especialistas apontam que, embora não seja possível determinar a origem exata das infecções, o compartilhamento do narguilé é um fator que facilita a transmissão de agentes infecciosos, como vírus e bactérias, e que a própria fumaça pode tornar o sistema respiratório mais vulnerável.

Enquanto o narguilé marcou o início do tabagismo para Ariane, o cigarro eletrônico ganhou espaço entre os mais jovens. Jaqueline Scholz, cardiologista, observa um aumento no consumo de nicotina em idades mais baixas e uma dinâmica de uso mais intensa. Um único cigarro eletrônico pode equivaler a mil tragadas diárias, liberando um aerossol com nicotina, metais pesados e compostos orgânicos voláteis, além de substâncias como formaldeído e acroleína. Complicações como a Evali (lesão pulmonar associada ao uso de cigarros eletrônicos) podem evoluir para insuficiência respiratória. Para Scholz, o uso contínuo dos vapes tem levado a casos de dependência, ansiedade e alterações cardíacas em jovens.

Aos 26 anos, Ariane segue um rigoroso tratamento, com idas frequentes à UBS e ao Hospital das Clínicas. A vida social e física foi drasticamente afetada; atividades que antes lhe davam prazer, como o futevôlei, tornaram-se inviáveis devido à falta de ar. Ela relata que passa mais tempo em hospitais do que em casa e, embora evite ambientes com aglomeração, sua rotina é marcada pela necessidade de cuidados constantes. A jovem compartilha sua experiência como um alerta: “Minha vida mudou completamente. Meu recado para as pessoas é que possam parar enquanto é tempo. Isso leva à morte mais rápido do que a gente imagina.”

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela reportagem.

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