Pacientes com dengue internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do Sistema Único de Saúde (SUS) apresentam quadros mais graves do que aqueles atendidos na rede privada. A constatação é de um estudo publicado em agosto no Journal of Critical Care, realizado por pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). O levantamento analisou internações de adultos com dengue em UTIs entre 2015 e 2024 e sugere que a gravidade acentuada no sistema público pode estar associada a um tempo maior de espera para o acesso à terapia intensiva.
A análise, que utilizou dados do registro UTIs Brasileiras e do Datasus, revelou que pacientes do SUS admitidos em UTIs são, em média, mais jovens (mediana de 50 anos) do que os da rede privada (54 anos). No entanto, eles demonstram maior necessidade de intervenções de suporte. Um em cada cinco pacientes do SUS precisou de medicamentos para manter a pressão arterial nas primeiras 24 horas de internação em UTI, contra 5,3% na rede privada. A hemodiálise também foi mais frequente no sistema público, afetando 4,7% dos pacientes, ante 1,3% nos hospitais privados.
Luciano Azevedo, intensivista e pesquisador do Einstein, autor principal do estudo, ressalta que, embora o levantamento não tenha medido o tempo exato entre o início dos sintomas e a internação em UTI, os dados confirmam que os pacientes no sistema público chegaram em estado mais crítico. “O que o estudo nos permite afirmar é que os pacientes internados nessas unidades eram mais graves do que os admitidos em hospitais privados”, explicou Azevedo. Uma das hipóteses para essa disparidade é o percurso que o paciente do SUS frequentemente percorre por Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) antes de chegar ao hospital, um trajeto que pode atrasar o acesso ao tratamento intensivo.
Pacientes mais jovens e mais graves no SUS
No registro UTIs Brasileiras, a taxa de mortalidade foi mais elevada entre os pacientes que necessitaram de vasopressores (medicamentos para manter a pressão arterial) logo no primeiro dia de UTI, atingindo 54,6%. Esse dado é um indicador de choque circulatório, uma condição de risco de vida. O estudo também observou que o risco de morte aumenta com a idade, com taxas mais altas em pacientes acima de 65 anos, tanto no registro UTIs Brasileiras quanto no Datasus. Cardiologista Henrique Fonseca, coautor do estudo, aponta que idosos podem ter menor reserva fisiológica e maior prevalência de doenças crônicas, o que agrava o quadro.
Diante desse cenário, o Ministério da Saúde já prevê atenção especial para grupos de risco, como idosos, gestantes e pessoas com comorbidades. A dengue, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, pode evoluir rapidamente para formas graves, especialmente na fase crítica, que geralmente ocorre entre o terceiro e o sétimo dia após o início dos sintomas. Sinais de alarme como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos requerem atenção médica imediata, pois o choque pode se instalar em poucas horas.
Vacinação e desafios futuros
Em 2025, o Brasil registrou mais de 1,4 milhão de casos de dengue e 1.821 mortes. A vacinação em massa é apontada por Fonseca como a principal estratégia para reduzir a incidência de casos graves. Atualmente, duas vacinas contra a dengue estão disponíveis: uma do Instituto Butantan, aprovada pela Anvisa para pessoas de 12 a 59 anos, e a Qdenga, da Takeda, aplicada em adolescentes de 10 a 14 anos no SUS. No entanto, a vacinação em massa enfrenta desafios, como a oferta limitada e a suspensão temporária da vacina do Butantan para investigação de casos graves associados ao imunizante. Nenhuma das vacinas disponíveis é indicada para idosos, a faixa etária de maior risco identificada no estudo.
