Diagnóstico de HPV durante a gestação: o que você precisa saber
A descoberta de uma infecção pelo HPV (papilomavírus humano) durante a gravidez pode gerar forte apreensão em muitas mulheres. No entanto, a orientação de médicos especialistas é que, embora o diagnóstico de um câncer associado ao vírus seja sempre delicado, os riscos para o bebê são considerados baixos. A infecção por HPV está ligada a mais de 99% dos casos de câncer de colo de útero, conforme dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca).
O caso da empresária Andressa Brognoli, 39, que descobriu um câncer de colo de útero e uma gravidez simultaneamente em 2022, ilustra a complexidade da situação. Sua história ressalta a importância da prevenção, como a vacinação contra o HPV, que se tornou disponível no SUS em 2014. Brognoli, contudo, já estava fora da faixa etária inicial recomendada para a vacina.
A ginecologista Márcia Terra, presidente da Associação Brasileira de Patologia do Trato Genital Inferior e Colposcopia, explica que a gestação, por apresentar uma diminuição natural da imunidade, pode favorecer o surgimento do vírus. “O diagnóstico nunca é fácil para nossa paciente. Na gestação, diminuindo a imunidade, o vírus aparece”, afirma. A especialista ressalta que a mera detecção do HPV não interfere diretamente no pré-natal, mas exige acompanhamento e discussão sobre possíveis tratamentos, dependendo do estágio da doença. As informações foram reunidas a partir de reportagens do especial sobre HPV da Folha de S.Paulo.
Tratamentos e cuidados durante a gestação
Existem mais de 200 tipos de HPV, sendo a maioria de baixo risco, que causa lesões menos graves, como verrugas. Os tipos 16 e 18 são os de alto risco mais comuns e estão associados a 70% dos casos de câncer cervical. A detecção do vírus em si não representa uma ameaça à gravidez; o risco real é medido por meio de exames como a colposcopia e biópsia para identificar lesões.
Em situações onde o câncer é diagnosticado durante a gestação, o plano de tratamento é individualizado. A oncologista Pilar Estevez Diz, diretora do Icesp, explica que o estágio da doença, o tamanho do tumor e o tempo de gestação influenciam a decisão médica, que pode, em alguns casos, recomendar a interrupção da gravidez. Contudo, é possível conduzir o tratamento oncológico com a gestação em curso, como ocorreu com Brognoli, que realizou quimioterapia durante a gravidez e radioterapia após o parto.
A radioterapia não é indicada durante a gestação, e a quimioterapia só é permitida após o primeiro trimestre. O tratamento quimioterápico deve ser interrompido cerca de três semanas antes do parto para minimizar riscos ao recém-nascido. A necessidade de um parto cesáreo não está diretamente ligada à presença do HPV, mas sim a condições obstétricas, como o crescimento de verrugas genitais que possam obstruir o canal de parto, ou a rigidez do colo do útero comprometido pelo câncer.
Transmissão do HPV para o bebê: um risco raro
A preocupação com a transmissão vertical do HPV, ou seja, da mãe para o filho durante o parto, é compreensível, mas a incidência é baixa. Segundo a ginecologista e obstetra Silvana Quintana, na maioria dos casos em que o vírus é identificado no recém-nascido, ele se torna indetectável em até seis meses de vida.
Em situações extremamente raras, a transmissão pode levar ao desenvolvimento de papilomatose respiratória recorrente, uma condição em que verrugas se formam nas vias aéreas da criança. Essa doença, associada aos tipos de baixo risco 6 e 11 do HPV, pode manifestar-se meses ou anos após o nascimento e, em casos graves, dificultar a respiração, exigindo intervenções cirúrgicas. Desde 2024, o Ministério da Saúde recomenda a vacinação contra o HPV como tratamento complementar para crianças com essa condição.
A falta de dados precisos sobre a incidência de HPV em gestantes no Brasil é um desafio, pois a infecção não é de notificação compulsória. O Ministério da Saúde busca mitigar essa lacuna com a implementação da Rede de Biologia Molecular para Detecção de HPV e com ações de resgate vacinal para adolescentes e jovens. Os especialistas reforçam a vacinação como a principal ferramenta de prevenção e orientam que mulheres com lesões genitais procurem atendimento médico para tratamento e para dificultar a transmissão do vírus ao bebê.
Andressa Brognoli, hoje acompanhada por médicos em sua segunda gestação, aconselha que mulheres em situações semelhantes busquem uma equipe médica qualificada e confiem na ciência.
