A divisão interna na direita brasileira se acentuou após a sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) que adiou a decisão sobre a investigação do ministro Alexandre de Moraes. O impasse no Judiciário abriu um debate acirrado sobre a pertinência de convocar apoiadores às ruas para pressionar o STF e o Senado, em um cenário de crescente desconfiança e incertezas.
A recente sessão do STF, que se estendeu por oito horas sem um desfecho concreto, gerou mal-estar e apreensão. A decisão de adiar a votação sobre a autorização para investigar Moraes, além de consolidar incertezas, deixou uma imagem de instabilidade da República brasileira, repercutindo negativamente entre investidores e observadores internacionais. A suspensão da sessão seguinte, prevista para esta quarta-feira (23), por decisão do presidente da Corte, Edson Fachin, apenas intensificou o debate sobre os próximos passos.
A tese de que a solução para a crise passa pelo Senado, responsável por processar o impeachment de ministros de tribunais superiores, ganhou força em setores da direita. A proximidade das eleições acentua o papel de senadores da próxima legislatura nesse contexto. No centro desse debate, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) emergiu como o principal defensor de novas mobilizações populares. Ferreira classificou a sessão do STF como um “circo” e defendeu que o país pare e vá às ruas na próxima reunião da Corte. Ele propôs um ato aberto a cidadãos de diferentes vertentes ideológicas, unidos pela defesa da institucionalidade e da democracia, buscando deixar de lado divergências em prol de uma causa comum.
A convocação de Ferreira não é isolada. Em setembro, ele já havia liderado uma manifestação no Amapá para pressionar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, sobre o andamento do impeachment de Moraes. Atos contra o ministro também ocorreram em diversas cidades no 7 de Setembro. No entanto, essa articulação encontra resistência dentro da própria direita. O receio é que incidentes pontuais, confrontos ou provocações possam desviar o foco das denúncias envolvendo o Banco Master e reacender associações dos protestos conservadores com os eventos de 8 de Janeiro.
Temores de armadilhas e discurso pronto da esquerda
O temor de que protestos possam ser instrumentalizados é alimentado pela narrativa de “golpe continuado” utilizada por setores governistas e pelo próprio Moraes para vincular o 8 de Janeiro a pressões posteriores contra o STF e articulações internacionais. A preocupação é que manifestações de rua possam oferecer pretextos para novas punições a adversários, sob o argumento de defesa da democracia.
Rony Gabriel, vereador e candidato a deputado federal, tem ganhado projeção nacional ao criticar Moraes e defender a responsabilização de membros do STF. Contudo, ele se mostrou cauteloso quanto à convocação de protestos de rua. Gabriel alertou que, no atual cenário eleitoral, os conservadores correm o risco de cair em armadilhas da esquerda, que teria um discurso pronto para denunciar excessos e punir rivais, alegando defesa do STF.
A divergência na direita é, portanto, predominantemente tática. Enquanto uma ala vê as ruas como um instrumento legítimo de pressão, outra teme que qualquer descontrole possa dar aos adversários a oportunidade de reacender o debate sobre o 8 de Janeiro no meio da campanha eleitoral, desviando o foco de suspeitas graves. A segurança em manifestações passadas, como a organizada por Nikolas em janeiro, onde sua própria equipe montou um cordão de proteção por receio de infiltrados, reforça a cautela diante de novas aglomerações em larga escala.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela imprensa.
