Habib's enfrenta a pior crise de sua história e busca renegociar dívidas bilionárias
Habib’s enfrenta a pior crise de sua história e busca renegociar dívidas bilionárias

Habib’s enfrenta a pior crise de sua história e busca renegociar dívidas bilionárias

A rede Habib’s, conhecida por popularizar a esfiha a preços acessíveis no Brasil, atravessa o seu momento mais delicado em quase quatro décadas de existência. A empresa entrou com um pedido de recuperação judicial para renegociar um passivo que supera os R$ 300 milhões, buscando uma medida cautelar que suspendeu por 60 dias as cobranças […]

Resumo

A rede Habib’s, conhecida por popularizar a esfiha a preços acessíveis no Brasil, atravessa o seu momento mais delicado em quase quatro décadas de existência. A empresa entrou com um pedido de recuperação judicial para renegociar um passivo que supera os R$ 300 milhões, buscando uma medida cautelar que suspendeu por 60 dias as cobranças e execuções de dívidas contra o Grupo Gênios, controlador da marca e também da Ragazzo.

A decisão, tomada pela 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, visa dar fôlego à companhia para que possa negociar com seus credores sem o risco iminente de ter seus bens bloqueados. Em nota oficial, o grupo Habib’s reconheceu a crise, mas assegurou que o atendimento aos clientes não foi afetado e que todas as lojas continuam operando normalmente em todo o país.

A sequência de dificuldades que o Habib’s enfrenta não é inédita, mas a atual crise possui um impacto estrutural maior. Nos últimos anos, a rede, que emprega mais de 17 mil colaboradores e atende anualmente cerca de 200 milhões de clientes, viu seu modelo de negócios ser pressionado por uma combinação de fatores. A pandemia de Covid-19 reduziu drasticamente o fluxo de pessoas nas lojas físicas. Paralelamente, a ascensão dos aplicativos de entrega e a mudança nos hábitos de consumo intensificaram a concorrência e apertaram as margens de lucro.

Pressão inflacionária e queda na qualidade

A alta da inflação nos últimos tempos elevou os custos operacionais, tornando desafiadora a manutenção da estratégia de preços baixos que sempre foi o carro-chefe da marca. Uma esfiha que há uma década custava R$ 0,99, hoje é vendida por R$ 4,99. Além dos desafios econômicos, o Habib’s tem sido alvo de críticas de consumidores pela percepção de queda na padronização e na qualidade dos produtos. Relatos de clientes apontam para a inconsistência no preparo de lanches e na qualidade dos ingredientes, o que tem levado muitos a buscarem alternativas.

Essa falta de previsibilidade na qualidade tem incomodado consumidores fiéis. Estela Matheus de Arruda Botelho, arquiteta de São Paulo, relata que a marca deixou de ser prioridade para sua família devido à oscilação na qualidade dos pratos, como o Beirute, que por vezes chegava com o frango excessivamente torrado, dificultando o consumo.

Histórico de desafios e resiliência

Apesar do cenário atual, o Habib’s já enfrentou outros momentos de turbulência. Em períodos de inflação elevada, a rede sustentou preços baixos, o que gerou questionamentos de franqueados e, em algumas ocasiões, denúncias trabalhistas. Em 2014, a empresa também foi investigada por suspeita de fraude fiscal, com um sistema eletrônico para omitir receitas.

O fundador, Alberto Saraiva, em entrevista à rádio CBN, reconheceu a necessidade de maior controle sobre as despesas, especialmente após a pandemia. A agência especializada em foodservice Tanjerin aponta que o aumento da concorrência no delivery e o endividamento das famílias, principalmente nas classes B, C e D – público preferencial da marca –, agravaram a situação. Cristina Souza, CEO da Tanjerin, ressalta que o delivery é um canal importante, mas não pode ser o único, e que a presença física do consumidor precisa se pagar.

Apesar dos desafios, especialistas como Cristina Souza veem potencial de recuperação para o Habib’s, citando a resiliência de grandes marcas brasileiras. A empresa tem investido em formatos menores, como quiosques e lojas express, como parte de sua estratégia para virar o jogo.

A rede Habib’s foi fundada por Alberto Saraiva, que precisou interromper os estudos de Medicina após o assassinato de seu pai, um imigrante português, para assumir o sustento da família. Herdando uma padaria em dificuldades, Saraiva aplicou teses de negócios como a venda a preços baixos para ganhar escala e o conhecimento profundo dos processos produtivos. Em 1988, inspirado por um senhor experiente em culinária árabe, Saraiva lançou a primeira loja do Habib’s, popularizando pratos que antes eram restritos a um público seleto e de alto poder aquisitivo. A estratégia de preços acessíveis e produção própria consolidou a marca nos hábitos dos brasileiros nas décadas seguintes, chegando a ditar regras para o mercado.

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