A disputa semântica que divide fãs e federações
A provocação da federação belga de futebol aos Estados Unidos, após a eliminação dos americanos na Copa do Mundo de 2026, reacendeu um debate antigo e peculiar: por que o esporte mais popular do planeta, com cerca de 3,5 bilhões de fãs, é chamado de “futebol” em grande parte do mundo e “soccer” em outros, como os EUA? A postagem da Bélgica nas redes sociais, em resposta a uma interferência política em um lance de jogo, não apenas ironizou o adversário, mas também apelou para a tradição, sugerindo que o termo “soccer” é uma invenção recente para algo que eles conhecem há séculos como “football”.
Contudo, a origem da confusão linguística é mais complexa e tem raízes no próprio Reino Unido, berço do esporte. As expressões “football” e “soccer” coexistiram desde o século XIX, com o termo “football” sendo inicialmente genérico para diversos jogos recreativos praticados na Grã-Bretanha. Com o tempo, três modalidades principais se consolidaram: o futebol gaélico, o rúgbi e o esporte padronizado pela Football Association (FA) inglesa.
Para diferenciar o jogo regulado pela FA das outras variantes, os ingleses criaram o termo “soccer”, derivado da palavra “association” (associação) com o sufixo diminutivo “-er”, comum entre estudantes de universidades como Oxford e Cambridge na época. Essa prática também gerou o termo “rugger” para o rúgbi. A adoção de “soccer” foi uma forma de nomear o futebol da FA, enquanto “football” continuava a ser usado para outras modalidades, especialmente em ex-colônias britânicas.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela ESPN e por especialistas em linguística.
A consolidação do “football” e a diáspora do “soccer”
A Copa do Mundo de 1966, sediada e vencida pela Inglaterra, marcou um ponto de virada. O futebol praticado pela FA tornou-se hegemônico globalmente, sendo adotado e adaptado em diversos idiomas como português, espanhol, alemão, russo e francês, todos utilizando variações de “football”. No entanto, em países como Estados Unidos, Austrália e África do Sul, o termo “football” já estava associado a outros esportes, como o rúgbi e, posteriormente, o futebol americano e o futebol australiano.
Nessas nações, para evitar ambiguidades, o futebol da FA acabou sendo batizado de “soccer”. Na África do Sul, por exemplo, onde tanto o futebol quanto o rúgbi são populares, “soccer” passou a designar o esporte de Pelé e Maradona. Na Austrália, o termo “footy” já designa o futebol australiano, abrindo, teoricamente, espaço para que o esporte globalmente conhecido como “futebol” possa, eventualmente, ser chamado por outro nome.
A disputa semântica, portanto, transcende a simples nomenclatura. Ela reflete a história da disseminação do esporte, as influências culturais e a própria evolução da linguagem, mostrando como uma única prática esportiva pode carregar diferentes identidades em diferentes partes do mundo.
