Didier Deschamps está a um passo de se tornar o primeiro técnico a levar sua seleção a três finais consecutivas de Copa do Mundo. Aos 57 anos, o comandante francês, campeão em 2018 e vice em 2022, demonstra uma evolução notável em seu estilo de jogo, mesclando a solidez defensiva com maior liberdade ofensiva, e reafirma sua importância para a história da seleção francesa.
Questionado sobre o segredo para a longevidade e o sucesso de sua equipe, Deschamps atribui o mérito aos jogadores: “É ter jogadores bons, jogadores muito bons. Sei bem que um treinador e seu estafe só têm sucesso por causa dos jogadores”. No entanto, permitiu-se um sorriso e acrescentou: “Mas talvez eu não seja tão ruim no que faço”. A trajetória recente da França sugere que a afirmação modesta esconde uma dose considerável de autoconfiança e capacidade tática.
A consistência de Deschamps no comando técnico da França, iniciado em 2012, tem sido um marco. Após a Eurocopa de 2024, onde a equipe chegou às semifinais com um desempenho ofensivo considerado modesto – apenas três gols em cinco jogos, incluindo um gol contra e um de pênalti –, o treinador enfrentou questionamentos sobre sua estabilidade. Contudo, ele não só permaneceu no cargo como anunciou que seu ciclo se encerraria após a Copa do Mundo de 2026, evidenciando uma gestão de carreira planejada e a consciência do momento certo de encerrar um ciclo.
Uma nova abordagem para o sucesso
Desde o anúncio de sua saída após 2026, Deschamps implementou uma renovação na equipe, estabelecendo um pacto com seus talentosos atacantes: maior liberdade com a bola em troca de dedicação ao plano defensivo. Essa nova estratégia tem se mostrado eficaz. Na atual Copa do Mundo, a França marcou 16 gols em seis jogos, um número que poderia ser ainda maior, como evidenciado nas 22 finalizações na vitória por 2 a 0 sobre Marrocos nas quartas de final. A equipe demonstrou domínio mesmo em partidas onde alguns de seus astros não brilharam intensamente, como na ocasião em que Olise não teve uma atuação destacada e Mbappé desperdiçou um pênalti, que ele logo redimiu com um golaço.
A dedicação de Mbappé na pressão à saída de bola adversária, algo antes inimaginável para o craque, exemplifica a mudança de mentalidade imposta por Deschamps. Com a colaboração dos homens de frente e uma defesa sólida, composta pela dupla Upamecano e Saliba, a França sofreu apenas dois gols na campanha. Essa abordagem equilibrada é o que pode levar Deschamps a um feito histórico.
Legado e reconhecimento
A apenas uma vitória de alcançar a terceira final mundialista como técnico, Deschamps também pode se tornar o segundo treinador a conquistar dois títulos, igualando Vittorio Pozzo, que liderou a Itália em 1934 e 1938. A vantagem de Deschamps é a conquista de uma Copa como jogador em 1998, algo que o diferencia de Pozzo. Sua influência na seleção francesa é inegável, estando presente em 32 dos 79 jogos da equipe em Copas, participando diretamente de 57,8% das vitórias como atleta ou comandante.
Alguns apontam a sorte como fator para o sucesso de Deschamps, uma visão que o ex-jogador Thierry Henry rebate: “Bem, se você continua a conquistar e a conquistar como treinador, como jogador, por 40 anos, não é sorte. É trabalho, é ímpeto. Ele é um exemplo para todos nós”. Marcello Lippi, que o treinou na Juventus, já antevia seu potencial como técnico, descrevendo-o como “inteligentíssimo”.
A carreira de Deschamps fora das quatro linhas começou com um surpreendente vice-campeonato da Liga dos Campeões com o Monaco em 2004. Após passagens pela Juventus e pelo Marseille, foi na seleção francesa que consolidou seu nome como treinador. Sua habilidade em lidar com situações delicadas, como a acusação de estupro contra Mbappé, onde conversou com o jogador e o afastou temporariamente, e sua capacidade de convencer o craque a atuar mais avançado, demonstram sua liderança e jogo de cintura. O gesto de Mbappé, que abraçou Deschamps após marcar um gol contra a Suécia, mesmo após o técnico ter se ausentado para o velório de sua mãe, reforça o espírito de equipe que Deschamps tanto preza. “O espírito de equipe não ganha necessariamente jogos, mas a falta dele pode fazer você perdê-los”, declarou o técnico, evidenciando a força coletiva como pilar de seu trabalho.
As informações foram reunidas a partir de declarações de Didier Deschamps e análises de especialistas.
