A legalização da maconha na Alemanha, implementada há pouco mais de dois anos, ainda enfrenta desafios significativos para desbancar o mercado ilegal. A reforma, que permitiu o cultivo doméstico e a criação de clubes de cannabis, mostra-se lenta em sua aplicação prática, com barreiras burocráticas e dificuldades de acesso que limitam seu alcance.
Em um galpão climatizado na Saxônia-Anhalt, variedades de cannabis como Inferno, Super Buff Cherry e Very Guava crescem sob cuidados intensivos. Estas são as plantas cultivadas pelo Green Valley Club, uma das mais de 360 associações de cannabis registradas no país. A lei alemã permite que maiores de 18 anos cultivem até três plantas e portem até 25 gramas em público. Os clubes, por sua vez, podem produzir em larga escala e fornecer para até 500 membros, operando sem fins lucrativos. No entanto, a pesquisa encomendada pelo próprio governo alemão para avaliar os efeitos da reforma, conduzida por universidades e hospitais de renome, aponta que, até o momento, apenas cerca de 3,5% do público consumidor tem acesso à erva por meio dessas associações.
Um dos principais entraves para a expansão desses clubes é a regulamentação estadual, que frequentemente proíbe a instalação de tais associações próximo a escolas, parques infantis, áreas militares e verdes. A rigidez na aplicação dessas regras varia entre os estados, com alguns emitindo poucas licenças e outros oferecendo algum suporte. Jan Fischer, gerente técnico do Green Valley, relata a dificuldade em encontrar locais adequados para o cultivo, o que levou a sede do clube a Berlim e a plantação para o estado vizinho da Saxônia-Anhalt. A proibição de qualquer tipo de propaganda também dificulta a aquisição de novos membros, que dependem principalmente do boca a boca e de divulgações esporádicas em redes sociais. O Green Valley, por exemplo, conta atualmente com cerca de 350 integrantes.
Expansão da Cannabis Medicinal e Desafios de Regulação
Paralelamente ao uso recreativo, a Alemanha também retirou a cannabis medicinal da lista de narcóticos, simplificando sua prescrição. Isso resultou na criação do maior mercado de cannabis medicinal da Europa. Entre 2024 e 2025, a importação da erva para fins medicinais registrou um aumento de 198%. Contudo, a pesquisa governamental alerta para o marketing agressivo de drogarias online, que, ao desrespeitar a lei de publicidade de medicamentos, oferecem produtos com altos níveis de THC, o principal composto psicoativo da cannabis, apresentando potenciais riscos à saúde dos usuários.
A legislação federal exige que clubes de cannabis estabeleçam limites de THC para usuários entre 18 e 21 anos. Para contornar essa restrição, o Green Valley optou por aceitar apenas membros com mais de 21 anos. O processo produtivo envolve o envio da colheita para laboratórios que analisam a qualidade e o teor de THC, um procedimento que demanda alto investimento. O Green Valley, por exemplo, investiu cerca de 500 mil euros (aproximadamente R$ 2,9 milhões) na construção de seu galpão e vende a grama a 5,95 euros (cerca de R$ 35). Para os fundadores, ex-estudantes de horticultura, a falta de remuneração dentro da associação os força a trabalhar paralelamente com o cultivo de cannabis medicinal para sustentar suas atividades.
Impactos no Crime Organizado e Próximos Passos
Embora ainda seja cedo para conclusões definitivas sobre o impacto da reforma no crime organizado, a pesquisa sugere uma diminuição da relevância do mercado ilegal. O aumento moderado no cultivo pessoal e na compra legal de maconha, aliado à ausência de um crescimento significativo no consumo geral, aponta nessa direção. No entanto, os pesquisadores observam que a reforma tornou mais complexo responsabilizar os envolvidos no crime organizado. O estudo indica que a substituição do mercado ilegal poderia ser acelerada com o fortalecimento das associações de cultivo, especialmente através da simplificação das regras legais para o cultivo e distribuição da cannabis nestes clubes.
