Decisão de Dino sobre ataques religiosos mira eleições de 2026, avaliam juristas
Decisão de Dino sobre ataques religiosos mira eleições de 2026, avaliam juristas

Decisão de Dino sobre ataques religiosos mira eleições de 2026, avaliam juristas

Decisão de Flávio Dino para investigar ataques religiosos é vista como manobra eleitoral O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal (PF) investigue uma série de episódios de vandalismo e ataques contra símbolos e espaços religiosos em diferentes estados. A medida, tomada sob a alegação de uma “aparente onda” […]

Resumo

Decisão de Flávio Dino para investigar ataques religiosos é vista como manobra eleitoral

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal (PF) investigue uma série de episódios de vandalismo e ataques contra símbolos e espaços religiosos em diferentes estados. A medida, tomada sob a alegação de uma “aparente onda” de crimes contra manifestações religiosas, ocorre em um momento de intensa polarização política e eleitoral, levantando questionamentos sobre sua legitimidade e motivação.

Especialistas ouvidos pela reportagem avaliam que a decisão de Dino, que busca unificar e investigar supostos ataques com motivação religiosa, pode ter como objetivo manter em evidência temas sensíveis e influenciar o debate público em direção às eleições de 2026. A iniciativa surge após um embate entre ministros do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a disseminação de uma notícia falsa envolvendo o nome de Flávio Bolsonaro e a imagem de Nossa Senhora Aparecida.

As informações foram reunidas a partir de reportagens e análises de especialistas em direito constitucional e público.

Investigação federal sobre ataques religiosos: o que diz a decisão?

A decisão de Dino, fundamentada na Reclamação 95.295/PR, lista nove ocorrências registradas em estados como Bahia, Alagoas, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Mato Grosso e Pará. Entre os casos citados estão a destruição de imagens de santos católicos, vandalismo em lojas de artigos religiosos, incêndio de imagens de Nossa Senhora Aparecida e depredação de terreiros de umbanda e de matriz africana.

O ministro determinou o envio das informações à Procuradoria-Geral da República e a instauração de inquérito pela PF para apurar crimes como vilipêndio de objeto de culto, intolerância religiosa, injúria, ameaça, furto, dano e incêndio, além de verificar a conexão entre os episódios. Contudo, a decisão não apresenta dados estatísticos que comprovem um aumento significativo dos casos ou que estabeleçam uma ligação direta entre todos eles.

Críticas à legitimidade e ao caráter eleitoral da decisão

Juristas apontam questionamentos sobre a competência de Dino para determinar tal investigação, especialmente considerando que a controvérsia sobre a notícia falsa envolvendo Flávio Bolsonaro tramitava na Justiça Eleitoral. O constitucionalista André Marsiglia considera a medida “ilegítima” e argumenta que Dino estaria tentando criar um “medo sobre ataques religiosos em 2026”, comparando a estratégia àquela utilizada em 2022 para alertar sobre riscos à democracia.

Para o doutor em Direito Luiz Augusto Módolo, a iniciativa pode ser interpretada como uma tentativa de contornar a atuação do TSE, deslocando uma controvérsia para o STF e a PF. O constitucionalista Alessandro Chiarottino reforça essa visão, classificando a ação como “eleitoreira” e um “desvio de função” do ministro, que deveria defender a Constituição, mas estaria, segundo ele, defendendo um candidato.

A polêmica da notícia falsa e as decisões conflitantes no Judiciário

A controvérsia que antecedeu a decisão de Dino teve início com a disseminação de uma informação falsa de que Flávio Bolsonaro defenderia a retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. A campanha de Bolsonaro reagiu e apresentou representação ao Ministério Público Eleitoral. O caso escalou para o TSE, onde o ministro André Mendonça determinou a remoção de publicações associadas à fake news.

Em resposta, Dino suspendeu a decisão de Mendonça, argumentando que a liberdade de expressão deveria prevalecer diante da incerteza sobre a ilicitude das publicações. Posteriormente, o ministro Luiz Fux, do STF, reverteu a decisão de Dino, restabelecendo a ordem de remoção das postagens, mas ressaltou que o tema seria submetido ao plenário da Corte.

A doutora em Direito Público Clarisse Andrade concorda que a decisão de Dino pode ter como objetivo manter o caso Nossa Senhora Aparecida em evidência, apesar de a investigação abranger diferentes religiões. A trajetória política de Dino, com passagens pelo PCdoB, governos estaduais e o Ministério da Justiça, alimenta debates sobre sua capacidade de separar a atuação partidária da função de magistrado, especialmente em casos de cunho religioso.

O cenário de “guerra monocrática” e os próximos passos

Para juristas, as decisões conflitantes entre ministros do STF e do TSE sobre temas religiosos configuram uma “nova guerra monocrática”, onde partes buscam obter decisões favoráveis em diferentes instâncias. A situação levanta questionamentos sobre a estabilidade institucional e a possibilidade de “escolha de ministros” para julgar determinados temas.

O criminalista Márcio Nunes aponta para a necessidade de responder a duas questões cruciais: se os episódios de vandalismo justificam uma investigação federal unificada e se a competência da PF está configurada. A segunda questão é de ordem política e institucional: se a atuação de Dino representa o exercício de suas atribuições ou reforça a percepção de seu papel político no Supremo.

Analistas indicam que o caso de Nossa Senhora Aparecida transcendeu a disputa de narrativas, envolvendo o TSE, o STF e agora uma investigação federal. A rapidez com que o assunto se desenrolou, culminando em decisões divergentes e na determinação de uma investigação ampla, a poucos dias de eleições, reforça a percepção de que a questão religiosa se tornou um palco para disputas políticas.

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