Cacau amazônico chegou à Geórgia nos EUA séculos antes de Colombo, revela estudo
Cacau amazônico chegou à Geórgia nos EUA séculos antes de Colombo, revela estudo

Cacau amazônico chegou à Geórgia nos EUA séculos antes de Colombo, revela estudo

Descoberta em sítio arqueológico americano revoluciona entendimento sobre rotas comerciais antigas Fragmentos de cerâmica encontrados em Etowah, um proeminente sítio arqueológico na atual Geórgia, nos Estados Unidos, revelaram a presença de compostos de cacau. Análises de DNA confirmaram que uma bebida à base desta fruta, originária da Amazônia e popularizada por civilizações da América Central, […]

Resumo

Descoberta em sítio arqueológico americano revoluciona entendimento sobre rotas comerciais antigas

Fragmentos de cerâmica encontrados em Etowah, um proeminente sítio arqueológico na atual Geórgia, nos Estados Unidos, revelaram a presença de compostos de cacau. Análises de DNA confirmaram que uma bebida à base desta fruta, originária da Amazônia e popularizada por civilizações da América Central, era consumida na região por volta dos séculos XI e XII, muito antes da chegada dos europeus ao continente. A descoberta, publicada na revista científica PLOS One, lança nova luz sobre a complexidade das interações culturais e comerciais no período pré-colombiano.

Os artefatos em questão foram recuperados das fundações de um grande monumento de terra batida da antiga cidade indígena de Etowah, que atingiu seu auge cerca de 200 anos antes da invasão europeia. A presença de cacau em uma área tão ao norte do continente, tradicionalmente vista como mais isolada em comparação com as regiões tropicais e subtropicais, sugere redes de troca mais extensas do que se imaginava.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista científica PLOS One e pesquisas arqueológicas sobre o sítio de Etowah.

Evidências químicas e genéticas apontam para o cacau

Inicialmente, a identificação de teobromina, um alcaloide presente no cacau, em vasilhas de Etowah levantou dúvidas. Estudos anteriores haviam demonstrado que substâncias semelhantes poderiam ser derivadas do azevim-yaupon (Ilex vomitoria), uma planta nativa da região utilizada pelos indígenas para preparar a chamada “Bebida Negra”. No entanto, a nova pesquisa, liderada por Adam King da Universidade da Carolina do Sul, utilizou uma abordagem mais precisa: a análise de DNA vegetal.

Ao contrário da detecção de moléculas que poderiam ter origens múltiplas, a busca por sequências específicas de DNA permitiu identificar com alta confiança a presença de cacau. A análise não apenas confirmou o uso de um produto derivado do cacau, mas também indicou que os frutos utilizados pertenciam a linhagens de cacaueiros aparentadas a duas variedades distintas existentes atualmente. A idade dos fragmentos de DNA, com poucas dezenas de “letras” químicas, descarta a possibilidade de contaminação moderna.

Reavaliando o isolamento pré-colombiano

A descoberta em Etowah desafia a noção de um isolamento relativo entre as diferentes regiões das Américas no período pré-colombiano. Embora a circulação de produtos agrícolas como milho e mandioca entre a América do Norte e do Sul seja conhecida, o contato cultural com as áreas temperadas da América do Norte era considerado mais limitado. A cultura Pueblo, no Novo México, com suas conexões facilitadas por rotas comerciais desérticas com o México, era vista como uma exceção.

As plataformas de terra batida de Etowah, conhecidas como “mounds”, foram provavelmente construídas após grandes festins rituais que incluíam o consumo de bebidas de cacau. A cidade se insere em um contexto mais amplo da bacia do rio Mississippi, onde aglomerações urbanas com arquitetura monumental se desenvolveram. Os novos dados sugerem que essas cidades podem ter sido influenciadas, mesmo que indiretamente, por contatos com produtos e ideias vindos de regiões mais ao sul, reconfigurando o entendimento sobre a gênese das cidades pré-colombianas nos atuais Estados Unidos.

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