Nova esperança contra o HIV na América Latina
Um acordo firmado entre a farmacêutica Gilead Sciences e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), anunciado nesta terça-feira (15), abre uma nova possibilidade para que países da América Latina e Caribe, incluindo o Brasil, tenham acesso ao lenacapavir. Este medicamento injetável, administrado a cada seis meses, representa um avanço significativo na prevenção do HIV, pois reduz a necessidade de adesão a comprimidos diários.
O lenacapavir, comercializado como Sunlenca, já obteve autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em janeiro deste ano para uso como Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) em adultos e adolescentes com mais de 12 anos e peso mínimo de 35 kg. No entanto, a sua comercialização no país ainda depende da definição de preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) e da aprovação para incorporação no Sistema Único de Saúde (SUS) pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) e pelo Ministério da Saúde.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Gilead Sciences e pela Opas.
Caminho para o acesso ainda em construção
Apesar do acordo com a Opas, a disponibilidade imediata do lenacapavir nos países beneficiados não é garantida. O comunicado da Gilead não especifica preços, volumes reservados para o Brasil ou cronogramas de fornecimento. Cada governo precisará avaliar e decidir sobre a adesão à iniciativa. O Ministério da Saúde brasileiro informou que estuda oferecer o lenacapavir no SUS como uma alternativa para pessoas com dificuldades de adesão à medicação diária, mas ressaltou que a Conitec está, no momento, avaliando a incorporação do cabotegravir, da GSK/ViiV.
O Brasil já tentou negociar diretamente com a Gilead a compra do medicamento em julho, mas as tratativas não avançaram. A farmacêutica, contudo, afirmou que pretende continuar as negociações com o governo brasileiro, mesmo após o acordo com a Opas. Em agosto, houve uma reunião com a Gilead para discutir a redução de preços e a possível transferência de tecnologia para o Brasil.
Inovação e eficácia do lenacapavir
O lenacapavir atua bloqueando diferentes etapas do funcionamento do capsídeo viral, estrutura que envolve o material genético do HIV. Estudos de fase 3 demonstraram sua alta eficácia: no estudo Purpose 1, não houve infecções entre as mulheres cisgênero que receberam o medicamento. Já no Purpose 2, que contou com a participação de centros brasileiros, o lenacapavir reduziu em 96% a incidência de HIV em comparação com a taxa esperada sem PrEP e foi 89% mais eficaz que a profilaxia oral diária em homens cisgênero e pessoas de gênero diverso.
É importante notar que os resultados não configuram o medicamento como uma vacina e não eliminam a necessidade de acompanhamento médico e testes regulares. A Anvisa alerta para o risco de desenvolvimento de resistência viral caso o medicamento seja administrado a pessoas com infecção aguda não identificada ou que demorem a iniciar tratamento após falha da PrEP.
Repercussão da exclusão inicial
A assinatura do acordo com a Opas ocorre após um período de pressão de autoridades sanitárias e da sociedade civil. Em outubro de 2024, a Gilead concedeu licenças voluntárias para a produção de genéricos do lenacapavir em 120 países de baixa e média renda, mas o Brasil e a maior parte da América Latina ficaram de fora. Essa exclusão gerou forte reação, com o Conselho Nacional de Saúde aprovando uma moção de repúdio e defendendo a retomada do debate sobre licenciamento compulsório (quebra de patente) caso o preço inviabilizasse o acesso pelo SUS.
A controvérsia se manteve mesmo após a aprovação da Anvisa. Em julho deste ano, Draurio Barreira, diretor do Departamento de HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde, indicou que não havia acordo de curto prazo com a Gilead, citando uma proposta brasileira de US$ 400 por pessoa ao ano, valor não confirmado pela farmacêutica.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou em julho de 2025 que o lenacapavir fosse oferecido como uma opção adicional nas estratégias de prevenção combinada, destacando o potencial da menor frequência de aplicações para auxiliar pessoas com dificuldades de adesão ou receio do estigma associado ao uso diário de comprimidos.
