SUS inova no transporte de sangue raro com voo comercial
O Sistema Único de Saúde (SUS) realizou uma operação logística inédita nesta quinta-feira (8) ao transportar uma bolsa de sangue raro na cabine de um avião comercial. A carga, coletada no Ceará, chegou na manhã desta sexta-feira (9) a Juiz de Fora, em Minas Gerais, onde um paciente em estado grave, submetido a um transplante renal, aguardava a transfusão com urgência. Esta iniciativa, fruto de uma parceria entre o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e empresas aéreas, visa agilizar o transporte de hemocomponentes compatíveis, permitindo entregas mesmo em horários restritos como noites, fins de semana e feriados, diferentemente do modal de carga tradicional.
A necessidade da operação surgiu após exames pré-transfusionais identificarem no paciente o anticorpo anti-Jsb, uma particularidade que dificultou a localização de sangue compatível na rede local. Diante do quadro, a rede de hemoterapia acionou o Cadastro Nacional de Sangue Raro (CNSR), mantido pelo Ministério da Saúde. Através do cadastro, um doador compatível foi localizado no Ceará. A bolsa de sangue foi coletada, liberada no mesmo dia e acondicionada em embalagem especial com controle rigoroso de temperatura para o transporte aéreo gratuito.
O Cadastro Nacional de Sangue Raro, criado em 2013 pelo Ministério da Saúde, conta atualmente com 2.032 doadores cadastrados e já auxiliou mais de 300 pacientes em todo o país. O primeiro transporte de sangue raro em cabine de avião comercial ocorreu em 12 de setembro, ligando São Paulo ao Piauí, para atender a um paciente com doença renal crônica em estado grave. Em ambos os casos, as transfusões foram bem-sucedidas, com os pacientes apresentando melhora em seus quadros de saúde.
Avanços e desafios na identificação e transporte de sangue raro
O Ministério da Saúde planeja expandir a identificação de doadores com perfis sanguíneos raros e fortalecer a estrutura de laboratórios de referência. Uma das metas futuras é a adesão do Brasil a uma rede mundial de sangue raro, prevista para outubro de 2026. Essa integração internacional facilitará a solicitação de unidades de outros países e o envio de bolsas brasileiras para pacientes no exterior, ampliando as possibilidades de atendimento em casos complexos.
A raridade de um tipo sanguíneo está associada à presença de antígenos específicos na superfície das hemácias, além dos conhecidos sistemas ABO e Rh. Um perfil é considerado raro quando sua frequência é inferior a um em cada mil doadores, embora esse critério possa variar entre populações. A dificuldade de encontrar compatibilidade aumenta quando o paciente necessita de uma combinação específica de características, como múltiplos antígenos negativos simultaneamente, tornando a busca estatisticamente mais desafiadora em centros de coleta isolados.
Preservação da qualidade do sangue em longas distâncias
A eficácia de uma bolsa de sangue não é necessariamente comprometida pela distância, desde que as condições de conservação sejam mantidas rigorosamente. As hemácias devem ser armazenadas em temperaturas controladas, geralmente entre 1°C e 6°C, podendo a faixa se estender até 10°C durante o transporte, conforme protocolos específicos. A utilização de caixas térmicas adequadas e o monitoramento contínuo da temperatura garantem a manutenção da chamada cadeia de frio.
Falhas na conservação, e não a distância em si, representam o principal risco. Exposição a temperaturas fora dos limites estabelecidos pode danificar as hemácias e acelerar a hemólise, processo de ruptura celular. O transporte aéreo de sangue raro, integrado aos voos comerciais, segue o mesmo rigor de conservação, aproveitando a estrutura já utilizada para o transporte de órgãos, que em 2025 intermediou mais de 2 mil remessas, a maioria em voos comerciais. Uma estratégia adicional é o congelamento de unidades compatíveis, utilizando glicerol para proteger as hemácias e permitir sua conservação por até dez anos a temperaturas inferiores a -65°C.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Ministério da Saúde e reportagens sobre o tema.
