Mistério milenar pode estar prestes a ser desvendado no Vale dos Reis
Mais de um século após a descoberta da tumba de Tutancâmon, um dos achados arqueológicos mais célebres da história, novas pesquisas reacenderam um debate que intriga egiptólogos: a tumba KV62, onde o jovem faraó foi sepultado, seria apenas uma parte de um complexo funerário maior? A hipótese, formulada há uma década pelo egiptólogo Nicholas Reeves, ganha força com estudos recentes que apontam para a possível existência de câmaras ocultas atrás das paredes da tumba, que poderiam ter sido originalmente construídas para a rainha Nefertiti.
As informações foram reunidas a partir de estudos publicados pelo Occasional Papers of the Amarna Royal Tombs Project, revisões de trabalhos de campo e análises de dados geofísicos.
Uma tumba pequena demais para um faraó?
A própria pequenez da tumba de Tutancâmon em comparação com a de outros faraós já levantava suspeitas. Howard Carter, o arqueólogo que a descobriu em 1922, notou essa peculiaridade. Reeves argumenta que a tumba de Tutancâmon, que ascendeu ao trono ainda criança e morreu inesperadamente, pode ter sido uma adaptação apressada de um espaço funerário preexistente. A arquitetura da KV62, com uma curva acentuada para a esquerda, também diverge dos padrões de tumbas reais ou privadas da época, mas se alinha com o estilo de sepulturas de rainhas da 18ª dinastia, período em que viveu Nefertiti.
A análise das pinturas internas da tumba também oferece novas interpretações. Uma cena que retrata Ay, sucessor de Tutancâmon, realizando o ritual de “abertura da boca” sobre o faraó morto, poderia, segundo os pesquisadores, originalmente mostrar Tutancâmon realizando o mesmo ritual para seu predecessor. Essa figura predecessor seria, na visão deles, Smenkhkare, uma figura histórica que os pesquisadores identificam como a própria Nefertiti disfarçada.
Tecnologia revela possíveis espaços ocultos
Nas últimas décadas, diversas equipes utilizaram técnicas não invasivas para investigar os arredores da tumba KV62. Campanhas recentes, incluindo as realizadas em 2023 e 2024, combinaram radar de penetração no solo e microgravimetria, métodos capazes de detectar variações na densidade do subsolo e identificar anomalias estruturais. Os resultados dessas pesquisas forneceram novo respaldo científico à ideia de que a estrutura é mais antiga e extensa do que se imaginava.
Os dados sugerem a existência de um complexo funerário que se estenderia por cerca de 25 a 30 metros ao norte da tumba de Tutancâmon, possivelmente contendo cinco ou seis câmaras. A hipótese é que esses espaços estariam interligados à KV62 por passagens deliberadamente seladas na antiguidade. Embora os resultados sejam sugestivos, os pesquisadores alertam que ainda não são definitivos e que há limitações na determinação exata do tamanho e dos detalhes dessas possíveis estruturas.
Dúvidas e próximos passos para desvendar o enigma
A confirmação da existência de novas câmaras não resolveria automaticamente o mistério sobre seu conteúdo. Especialistas consultados pela Smithsonian Magazine expressam otimismo, mas também cautela. Ray Johnson, ex-diretor do Epigraphic Survey, considera os dados “tentadores”, mas adverte que as câmaras podem não abrigar Nefertiti e podem ter sofrido danos ao longo do tempo. Christopher Gaffney, arqueólogo, classifica os resultados como “fascinantes, mas ainda inconclusivos”, enquanto Peter Styles, geofísico, pede mais informações.
Para avançar, a equipe de pesquisa pretende obter autorização das autoridades egípcias para abrir uma pequena passagem em uma das áreas suspeitas, permitindo a inserção de uma câmera para observar o interior. Se a hipótese de Nefertiti for confirmada, a descoberta será considerada de “importância arqueológica excepcional”, segundo Mamdouh Eldamaty, principal pesquisador do estudo. A busca pela tumba da rainha, uma das figuras mais emblemáticas do Egito Antigo, continua a fascinar o mundo.
