Propostas de presidenciáveis para saúde exigem verba extra em SUS já estrangulado
Propostas de presidenciáveis para saúde exigem verba extra em SUS já estrangulado

Propostas de presidenciáveis para saúde exigem verba extra em SUS já estrangulado

Propostas de saúde dos presidenciáveis demandam mais recursos, mas financiamento do SUS já enfrenta pressão Um levantamento inédito do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), em parceria com a Umane, revela que 95% das propostas para a área da saúde apresentadas nos planos de governo de seis candidatos à Presidência da República exigem […]

Resumo

Propostas de saúde dos presidenciáveis demandam mais recursos, mas financiamento do SUS já enfrenta pressão

Um levantamento inédito do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), em parceria com a Umane, revela que 95% das propostas para a área da saúde apresentadas nos planos de governo de seis candidatos à Presidência da República exigem a injeção de verbas orçamentárias adicionais para serem concretizadas. O estudo analisou 95 propostas de candidatos com ao menos 2% das intenções de voto, como Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante).

A necessidade de ampliação de recursos surge em um contexto de crescente pressão sobre o financiamento do Sistema Único de Saúde (SUS). Projeções da Instituição Fiscal Independente (IFI) indicam que a demanda por financiamento federal para a saúde deve crescer, em média, 3,9% ao ano acima da inflação na próxima década. Contudo, a regra fiscal atual permite um aumento de até 2,5% ao ano para as despesas gerais da União. Essa discrepância pode gerar um déficit de R$ 29,7 bilhões no mínimo constitucional obrigatório para a saúde em 2030.

Júlia Pereira, gerente de relações institucionais do Ieps, destaca a importância de que os planos de governo detalhem as fontes de financiamento. Ela aponta o envelhecimento da população, a incorporação de novas tecnologias e a expansão do acesso aos serviços como os principais fatores que elevam os custos. Projeções do IBGE indicam que a população com 65 anos ou mais, que representava 6% em 2000, deve alcançar 23% em 2050, aumentando a demanda por consultas, exames, medicamentos e internações, além de cuidados com doenças crônicas.

O estudo do Ieps também aponta uma distância significativa entre a necessidade de investimento e o gasto público atual. A referência ideal seria que os gastos públicos com saúde atingissem 6% do Produto Interno Bruto (PIB) até 2030, mas entre 2018 e 2023, essa fatia avançou de 3,9% para apenas 4,3% do PIB.

Execução das propostas depende de articulação federativa

Além da questão financeira, a implementação das propostas enfrenta outro obstáculo: a dependência de articulação entre União, estados e municípios. Das 95 propostas analisadas, 83% (79 delas) necessitam de algum grau de colaboração entre os entes federativos, refletindo a natureza descentralizada do SUS.

Um exemplo claro dessa dependência é a reorganização das filas de atendimento. Cinco dos seis candidatos defendem que o acesso a serviços de saúde deixe de seguir estritamente a ordem de chegada, priorizando casos de maior gravidade ou risco clínico. Para que tal sistema funcione em escala nacional, seria essencial a troca de informações entre os sistemas estaduais e municipais, a integração das filas de atenção primária com as de exames e a capacidade dos gestores locais de organizar a regulação regional. Uma norma federal, por si só, não seria suficiente para garantir a mudança efetiva.

Metade das propostas já fazem parte do SUS

Outro dado relevante do levantamento é que 56% das propostas (53 de 95) já correspondem, total ou parcialmente, a políticas, programas ou normas já existentes no SUS. A organização de filas por risco clínico, por exemplo, já é prevista na Política Nacional de Regulação em Saúde do SUS, aprovada em dezembro de 2025.

A digitalização também é tema comum nos planos, com propostas de prontuário eletrônico nacional e expansão da telemedicina. No entanto, o Brasil já conta com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), que integra informações de diversos sistemas, e o Ministério da Saúde tem trabalhado na identificação por CPF para a implantação de prontuários eletrônicos unificados desde 2025.

“Quando um candidato promete algo que já existe, a pergunta que fica sem resposta é: o que exatamente ele faria diferente? Mais dinheiro? Mais integração? Corrigir uma falha específica de implementação?”, questiona Pereira. Ela acrescenta que, na maioria dos casos, os planos não detalham essas diferenças, apenas reafirmam um objetivo que já é política pública em curso, sem especificar mudanças práticas.

No plano de Lula, por exemplo, 19 das 21 propostas analisadas pelo Ieps já são políticas ou programas em vigor, como a Política Nacional de Regulação em Saúde e o programa Agora Tem Especialistas.

Temas emergentes e negligenciados nos planos

O levantamento também identificou três questões que, segundo o Ieps, devem impactar o sistema de saúde nos próximos anos, mas que foram pouco abordadas ou totalmente ausentes nos planos de governo: apostas online, mudanças climáticas e os efeitos do ambiente digital na saúde mental de crianças e adolescentes.

O instituto estima que 12,8 milhões de brasileiros fizeram apostas online em 2025, com cerca de 1,4 milhão em situação de jogo problemático, gerando custos anuais estimados em R$ 30,6 bilhões para a saúde. Nos planos, o tema aparece associado a endividamento familiar, sem ser tratado como questão de saúde pública.

Quanto às mudanças climáticas, o Ieps alerta para a vulnerabilidade da própria rede de atendimento do SUS. Cerca de 29% dos estabelecimentos de saúde estão localizados a menos de 500 metros de áreas de alto risco geológico, o que coloca em risco a infraestrutura física em eventos climáticos extremos. Essa vulnerabilidade não foi abordada pelos candidatos.

Por fim, a saúde mental de crianças e adolescentes expostos ao ambiente digital é outro ponto de atenção. Apesar da entrada em vigor das regras do Marco Legal da Internet das Coisas (IoT) e da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) em março de 2026, nenhum dos candidatos propôs a regulamentação das redes sociais como instrumento de proteção à saúde mental dessa população.

As informações foram reunidas a partir de um levantamento do Ieps em parceria com a Umane, com dados da Instituição Fiscal Independente (IFI) e projeções do IBGE.

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