Preconceito e falta de protocolos atrasam detecção de HPV em pessoas transgênero
Preconceito e falta de protocolos atrasam detecção de HPV em pessoas transgênero

Preconceito e falta de protocolos atrasam detecção de HPV em pessoas transgênero

A detecção tardia de cânceres associados ao Papilomavírus Humano (HPV) em pessoas transgênero é uma preocupação crescente, impulsionada pela falta de protocolos específicos e pelo preconceito no ambiente de saúde. A doutora em enfermagem Janaina Janine, da Uerj, destaca que essa lacuna pode levar a diagnósticos em estágios avançados, comprometendo as chances de tratamento e […]

Resumo

A detecção tardia de cânceres associados ao Papilomavírus Humano (HPV) em pessoas transgênero é uma preocupação crescente, impulsionada pela falta de protocolos específicos e pelo preconceito no ambiente de saúde. A doutora em enfermagem Janaina Janine, da Uerj, destaca que essa lacuna pode levar a diagnósticos em estágios avançados, comprometendo as chances de tratamento e recuperação.

O HPV é um vírus de alta prevalência, com cerca de 80% das pessoas sexualmente ativas entrando em contato com ele ao longo da vida. Embora a maioria dos tipos cause lesões benignas, 12 subtipos são considerados de alto risco e estão associados ao desenvolvimento de diversos tipos de câncer, incluindo colo de útero, pênis, ânus, orofaringe, vulva, vagina e, em pessoas trans que realizaram cirurgia de redesignação sexual, o câncer de neovagina. Uma revisão sistemática conduzida por Janine analisou mais de 80 casos de câncer em neovaginas e confirmou a relação com o HPV, com detecções frequentemente ocorrendo em estágios avançados, manifestando-se por meio de sangramentos, corrimentos, dor e até massas tumorais visíveis.

Apesar de decisões judiciais, como a do STF de 2020 confirmada em 2024, que determinam que atendimentos médicos devem ser realizados independentemente do sexo biológico registrado, a realidade no Brasil é marcada pelo preconceito. Uma pesquisa da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) revelou que 94% das pessoas trans entrevistadas relataram episódios de preconceito em atendimentos de saúde, com 36% tendo seus atendimentos recusados por serem trans. Profissionais de saúde, como a ginecologista endócrina Camila Toffoli, relatam ouvir de colegas que não se sentem aptos a atender pacientes trans, citando a falta de preparo e conhecimento específico.

Despreparo médico e ausência de diretrizes

Estudos corroboram essa percepção. Uma pesquisa com ginecologistas cisgênero mostrou que mais da metade nunca atendeu um paciente trans, e uma parcela significativa não se sente preparada ou confortável para lidar com essa população. Essa carência leva ao encaminhamento para outras especialidades, como clínica geral ou endocrinologia, que, embora essenciais, nem sempre possuem o conhecimento aprofundado em saúde ginecológica e detecção de HPV necessário. A oncologista Pilar Estevez, do Icesp, aponta que, embora existam exames laboratoriais capazes de detectar inflamações potencialmente cancerígenas em neovaginas, falta padronização e literatura médica específica sobre os sinais de alerta para detecção precoce, ao contrário do rastreamento consolidado para o câncer de colo de útero.

Diante desse cenário, Janaina Janine propõe o desenvolvimento de uma nova estratégia de saúde pública para a população LGBT+ no Rio de Janeiro, incluindo um protocolo de inspeção precoce do HPV em neovaginas. Essa necessidade é reforçada por estudos como o da farmacêutica MSD, que em 2025 apontou uma prevalência de HPV 53,3% maior em pessoas trans do que em cis. A pesquisadora ressalta, contudo, a importância do engajamento acadêmico para a criação de políticas públicas eficazes.

Prevenção e vacinação: um caminho a ser trilhado

A principal ferramenta de prevenção contra o HPV é a vacina. O SUS oferece a versão tetravalente para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, protegendo contra os tipos de alto risco 16 e 18, além dos tipos 6 e 11, causadores de verrugas. A aplicação gratuita fora dessa faixa etária é restrita a grupos específicos, como imunossuprimidos e pessoas vivendo com HIV. Camila Toffoli defende estratégias complementares, como a vacinação após o tratamento do HPV para fortalecer a resposta imune, um procedimento comum em mulheres cis, mas ainda sem protocolo definido para mulheres trans. Para quem não se enquadra nos grupos do SUS, a vacina nonavalente está disponível na rede particular, mas o alto custo das três doses, cerca de R$ 900 cada, representa uma barreira significativa.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados por reportagens do especial sobre HPV da Folha, com contribuições de especialistas como Janaina Janine, Camila Toffoli e Pilar Estevez, além de pesquisas da Antra e da farmacêutica MSD.

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