Ministro do STF, Flávio Dino, acusa críticos de racismo e preconceito regional por desqualificarem seu uso de citações de pensadores clássicos.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, classificou como racistas as críticas que apontam para uma “profusão de citações” de filósofos gregos e outras personalidades em suas manifestações. Dino utilizou termos como “jurista de província”, “pessoa destituída de qualquer qualificação” e “oratória grandiloquente de província” para argumentar que tais comentários revelam “preconceito regional”.
Em uma postagem em suas redes sociais, o ministro afirmou que “como derivação desse indisfarçável preconceito regional, de matriz racista, fazem tudo para desqualificar o meu conhecimento sobre Aristóteles e outros pensadores”. A publicação foi acompanhada de uma imagem de um mapa do Brasil destacando o Maranhão, seu estado natal.
A prática de Dino em embasar seus argumentos com referências a pensadores clássicos e textos religiosos não é nova. Durante uma sessão extraordinária do Supremo na última quinta-feira (15), o ministro citou Aristóteles cinco vezes. Em outra ocasião, em meio a uma crise no tribunal, ele iniciou uma postagem com uma frase do filósofo grego Ésquilo sobre a verdade na guerra e concluiu com um trecho bíblico.
Em sua defesa, Dino questionou se os críticos “nunca ouviram falar de paráfrase” ao serem acusados de imprecisão nas citações. Ele reconheceu estar sujeito a críticas como servidor público, mas ressaltou seu dever de apontar quando percebe ofensas, sugerindo que os detratores “melhorem a qualidade ética e técnica das ‘críticas'” e produzam “textos menos raivosos e mais consistentes”.
Especialista questiona uso de citações e alerta para riscos políticos
O filósofo Luís Felipe Pondé, em entrevista à Folha de S.Paulo, analisou as citações de Dino, questionando a aplicação de alguns conceitos aristotélicos. Pondé apontou que a atribuição da ironia por parte de Dino como ferramenta para “descontrair o ambiente” difere da concepção de Aristóteles, que a ligaria mais à modéstia ou prudência. Sobre a exaltação da prudência, Pondé ponderou sobre a possibilidade de seu uso para deslegitimar opiniões divergentes.
O filósofo também comentou o uso do termo “combate corrupto à corrupção” por Dino, que o explicou em um “sentido aristotélico” de “formas corrompidas de exercício de poder”. Embora Pondé tenha considerado este uso correto, classificou-o como um “recuo”. A menção final de Dino a um “silogismo” em contraposição a Luiz Fux foi vista por Pondé como um “salto grande”, alertando para o risco de o uso político do raciocínio dedutivo descambar em sofisma, onde premissas induzem a conclusões falhas.
O silogismo, forma de raciocínio dedutivo popularizada por Aristóteles, baseia-se em duas premissas para chegar a uma conclusão lógica, como no exemplo “Todos os homens são mortais; Sócrates é homem; logo, Sócrates é mortal”.
