Engajamento com artes e espetáculos parece estar associado a um organismo biologicamente mais jovem
Manter uma rotina rica em atividades culturais, como idas a cinemas, museus, galerias, teatros e concertos, pode ser um fator importante para desacelerar o processo de envelhecimento do corpo. É o que sugere um estudo realizado com quase 2 mil adultos na Inglaterra, que observou uma ligação entre a frequência de participação em eventos culturais e uma idade fisiológica menor. Em termos práticos, indivíduos com maior envolvimento cultural apresentaram um corpo que demonstra sinais de envelhecimento mais lento do que sua idade cronológica.
A pesquisa, publicada no Journal of Epidemiology and Community Health, analisou dados do English Longitudinal Study of Ageing (Elsa), que acompanha adultos com 50 anos ou mais. Os participantes foram avaliados quanto à frequência com que frequentavam atividades culturais, resultando em uma pontuação de engajamento cultural. Essa pontuação foi comparada com a idade fisiológica, calculada a partir de dez indicadores de saúde, como pressão arterial, capacidade pulmonar, níveis de colesterol e força de preensão manual. A diferença estimada na idade fisiológica entre os grupos de menor e maior engajamento cultural foi de aproximadamente 1,2 ano.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Agência Einstein, com base em um estudo publicado no Journal of Epidemiology and Community Health.
O que é idade fisiológica e como ela é medida
É fundamental distinguir idade fisiológica de idade cronológica. Enquanto a primeira se refere ao tempo de vida, a segunda busca estimar o estado de saúde e o ritmo de envelhecimento do organismo, que pode variar significativamente entre pessoas da mesma idade cronológica. Essa variação é influenciada por uma complexa interação de fatores, incluindo genética, hábitos de vida, histórico pessoal e determinantes sociais da saúde.
Para calcular a idade fisiológica, os pesquisadores utilizaram uma série de marcadores biológicos e de capacidade física. Entre eles estão a pressão arterial, a capacidade pulmonar, a hemoglobina glicada (indicador de controle do açúcar no sangue), o colesterol LDL (conhecido como colesterol ruim), o índice de massa corporal (IMC), a força com que se consegue apertar objetos com as mãos e a velocidade ao caminhar. Esses parâmetros, em conjunto, oferecem um panorama sobre a saúde cardiovascular e metabólica, além da aptidão física geral do indivíduo.
Estímulo cognitivo e bem-estar social
Diversos mecanismos podem explicar a associação encontrada. A coordenadora da pós-graduação em medicina do estilo de vida da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, Sley Tanigawa Guimarães, aponta que a simples ida a um evento cultural envolve uma série de processos. “Sair para uma atividade cultural envolve muito mais do que assistir a um filme ou observar uma obra de arte. É preciso programar o passeio, lembrar do compromisso, organizar o deslocamento e, muitas vezes, encontrar e conversar com outras pessoas. Além disso, música, artes e espetáculos mobilizam atenção, memória, interpretação e emoções. Tudo isso é um baita estímulo cognitivo”, explica. Essa atividade mental constante pode contribuir para a manutenção da saúde cerebral ao longo do tempo.
Outros benefícios potenciais incluem a redução do estresse e o fortalecimento do convívio social. Estudos anteriores já haviam associado o envolvimento cultural à diminuição da solidão, à adoção de hábitos de vida mais saudáveis e à melhoria da saúde mental, todos fatores que, por si só, estão ligados a um envelhecimento mais saudável.
Associação, não causalidade direta
É crucial notar que o estudo aponta para uma associação, e não para uma relação direta de causa e efeito. Os próprios autores da pesquisa ressaltam que pessoas com melhor condição física e mental podem ter mais disposição e autonomia para se engajar em atividades culturais. Ou seja, é possível que um bom estado de saúde geral leve à maior participação em eventos culturais, e não o contrário. Essa é uma nuance importante na interpretação dos resultados, que exige cautela ao estabelecer conclusões definitivas.
A boa notícia é que uma vida cultural ativa não precisa ser sinônimo de gastos elevados. Atividades como ler, ouvir música com atenção, dançar, assistir a filmes, participar de grupos de discussão ou aproveitar eventos culturais gratuitos também são maneiras eficazes de manter a mente ativa e promover o bem-estar. A qualidade da experiência, como apreciar uma música com foco em casa, pode ser tão ou mais benéfica quanto a participação passiva em grandes espetáculos.
