Nova espécie de felino é descoberta por brasileiro nas montanhas da Bolívia
Nova espécie de felino é descoberta por brasileiro nas montanhas da Bolívia

Nova espécie de felino é descoberta por brasileiro nas montanhas da Bolívia

Uma nova espécie de felino, a primeira em cem anos, foi identificada nas florestas montanhosas da Bolívia. A descoberta, realizada por uma equipe liderada por um pesquisador brasileiro, foi possível graças a avançadas análises de DNA que desvendaram as particularidades genéticas de um misterioso gato selvagem. Se confirmada, a descoberta marca um momento significativo para […]

Resumo

Uma nova espécie de felino, a primeira em cem anos, foi identificada nas florestas montanhosas da Bolívia. A descoberta, realizada por uma equipe liderada por um pesquisador brasileiro, foi possível graças a avançadas análises de DNA que desvendaram as particularidades genéticas de um misterioso gato selvagem. Se confirmada, a descoberta marca um momento significativo para a zoologia, sendo a primeira nova espécie de felino descrita pela ciência desde 1923.

O animal, popularmente conhecido como “tilcayo” pelos habitantes locais, mede cerca de 45 cm de comprimento, com uma cauda adicional de 25 cm. Cientificamente batizado de Leopardus tilcayo, o nome faz referência à sua região de origem, mas é importante notar que ele não pertence ao gênero dos leopardos, que não ocorrem nas Américas. Em vez disso, o tilcayo é um membro do grupo dos gatos-do-mato-pequenos, um conjunto de espécies que inclui animais nativos do Brasil e que historicamente têm gerado complexidade na classificação científica devido às suas semelhanças e proximidade evolutiva.

A pesquisa, que teve entre seus coordenadores Eduardo Eizirik, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), buscou justamente lançar luz sobre essa complexidade taxonômica, focando em populações de gatos-do-mato-pequenos em áreas pouco exploradas da América do Sul. Ao lado de Jonas Lescroart (PUC-RS e Universidade de Antuérpia) e Paola Nogales-Ascarrunz (Universidad Mayor de San Andrés, Bolívia), Eizirik coordenou um esforço que mapeou o genoma desses felinos em diferentes regiões do continente. A análise incluiu espécimes de animais vivos e exemplares de museus coletados há décadas, importantes por preservarem parte da diversidade genética que pode ter se perdido devido à redução de habitats.

O Complexo de Espécies e a Nova Descoberta

A análise genômica abrangeu o DNA completo de 38 felinos do gênero Leopardus, com 26 deles inseridos no intrigante “complexo de espécies” que desafia os biólogos. No Brasil, este complexo engloba o gato-do-mato-da-mata-atlântica (L. guttulus), o gato-do-mato-pequeno (L. tigrinus) que habita regiões montanhosas no extremo norte do país e nas Guianas, e o gato-mourisco-pequeno (L. emiliae), encontrado na caatinga e no cerrado.

Anteriormente, muitos desses animais e seus parentes sul-americanos eram agrupados sob uma única espécie, a L. tigrinus, também conhecida como “gato-tigre”. Embora no século XIX tenham surgido propostas para separá-los em diferentes espécies, foi o trabalho de Eizirik, com análises genômicas recentes, que “ressuscitou” nomes antigos e validou a separação com base em diferenças de DNA. “Todos esses foram casos de revalidação, mostrando espécies que devem ser reconhecidas, mas validando nomes que haviam sido previamente propostos”, explicou o pesquisador à Folha.

O caso do Leopardus tilcayo, no entanto, é distinto. “Não havia nome disponível porque ninguém havia proposto a existência da espécie antes. Então o que estamos fazendo nesse caso é uma descrição e a proposta de um novo táxon”, ressaltou Eizirik, destacando o caráter inédito da descoberta. Essa distinção o torna a primeira nova espécie de felino não fóssil descrita em um século.

Habitat e Evolução do Tilcayo

A diferenciação do “tilcayo” pode ser atribuída ao seu habitat peculiar nas “yungas” bolivianas, uma área de transição entre a Floresta Amazônica e a Cordilheira dos Andes. Caracterizada por alta umidade e uma grande variação de altitude, que vai de 400 a 3.500 metros, essa região montanhosa tende a isolar pequenas populações, favorecendo o surgimento de novas espécies ao longo do tempo. As flutuações climáticas da Era do Gelo, que alteraram a extensão e a conectividade das matas, também contribuíram para o isolamento evolutivo do tilcayo.

Estima-se que o L. tilcayo tenha se separado da linhagem dos demais gatos-do-mato-pequenos há cerca de 1,5 milhão de anos. Apesar desse longo período de isolamento, hibridizações com outras espécies ocorreram. A análise do DNA mitocondrial (mtDNA), transmitido pela linha materna, revelou que o mtDNA do tilcayo é derivado de um provável ancestral do gato-mourisco-grande (L. geoffroyi). “Parece ser outro caso de hibridação antiga, sem ter deixado vestígios que tenhamos detectado ainda no genoma nuclear”, comentou Eizirik.

Além de aprofundar o conhecimento sobre a evolução dos felinos no continente, essas descobertas são cruciais para a conservação. A identificação de novas espécies e a compreensão de sua diversidade genética única são fundamentais para o planejamento de áreas protegidas e para a formulação de estratégias de conservação eficazes.

Tags:

Veja Também

Neandertais: A Idade da Madeira Revela Habilidade Desconhecida

Neandertais: A Idade da Madeira Revela Habilidade Desconhecida

Governo Lula pede à PF investigação de ameaças de morte contra deputada eleita por MG

Governo Lula pede à PF investigação de ameaças de morte contra deputada eleita por MG

Governo Lula mira cargos do Centrão que apoiaram Bolsonaro

Governo Lula mira cargos do Centrão que apoiaram Bolsonaro

Copiloto da Flydubai Planejou Ataque ao Estilo 11 de Setembro Contra Israel, Diz Procurador

Rússia descarta peste em contatos de funcionária morta por pneumonia