Psilocibina, composto de cogumelos, demonstra potencial na prevenção de dores intratáveis causadas por quimioterapia
Psilocibina, composto de cogumelos, demonstra potencial na prevenção de dores intratáveis causadas por quimioterapia

Psilocibina, composto de cogumelos, demonstra potencial na prevenção de dores intratáveis causadas por quimioterapia

Estudo revolucionário da Universidade do Texas revela como a psilocibina pode prevenir a neuropatia periférica induzida pela quimioterapia, uma dor crônica que afeta milhares de pacientes oncológicos. A descoberta, publicada na revista Science, aponta para um novo uso terapêutico de substâncias psicodélicas e desvenda o papel crucial das mitocôndrias no transporte de energia celular. Pesquisadores […]

Resumo

Estudo revolucionário da Universidade do Texas revela como a psilocibina pode prevenir a neuropatia periférica induzida pela quimioterapia, uma dor crônica que afeta milhares de pacientes oncológicos. A descoberta, publicada na revista Science, aponta para um novo uso terapêutico de substâncias psicodélicas e desvenda o papel crucial das mitocôndrias no transporte de energia celular.

Pesquisadores do Centro de Câncer MD Anderson, da Universidade do Texas, anunciaram um avanço significativo na luta contra os efeitos colaterais debilitantes do tratamento contra o câncer. Um estudo detalhado, publicado na renomada revista Science, demonstra que a psilocibina, o composto psicoativo encontrado em cogumelos, é capaz de prevenir a neuropatia periférica induzida pela quimioterapia (NPIQ). Esta condição, que se manifesta como dor intensa e, por vezes, permanente nas extremidades do corpo, afeta uma parcela considerável dos pacientes em tratamento oncológico e para a qual as opções terapêuticas são limitadas.

O estudo, intitulado “Psilocibina Previne Neuropatia Periférica Induzida pela Quimioterapia por Meio da Preservação do Tráfego Mitocondrial”, contou com a colaboração de 30 autores, incluindo o brasileiro Frederico Omar Gleber Netto. A NPIQ é um efeito adverso comum de muitos quimioterápicos, surgindo em até três quartos dos pacientes e evoluindo para dor crônica em um terço dos casos. A pesquisa, liderada pelos autores seniores Patrick M. Dougherty e Moran Amit, revelou que a chave para essa proteção reside na forma como a psilocibina interfere no transporte celular de energia.

O Mecanismo de Proteção Mitocondrial

A pista para a descoberta surgiu de uma observação inesperada: camundongos submetidos à quimioterapia não desenvolviam neuropatia quando previamente tratados com psilocibina. Após rigorosas repetições do experimento com diferentes quimioterápicos e tipos de câncer, a equipe confirmou a eficácia protetora da substância. A análise de tecidos nervosos de animais e amostras humanas indicou que o efeito protetor estava ligado à preservação das mitocôndrias, as “usinas de energia” das células.

As mitocôndrias são essenciais para a saúde dos neurônios, pois fornecem a energia necessária para o crescimento e manutenção dos axônios, as extensões nervosas que transmitem sinais. Os quimioterápicos frequentemente danificam os microtúbulos, estruturas celulares que funcionam como “trilhos” para o transporte de mitocôndrias e outras substâncias essenciais ao longo dos axônios. A psilocibina, por sua vez, atua sobre o receptor neuronal 5HT2a – o mesmo responsável pelos efeitos psicodélicos da substância – desencadeando uma cascata de reações que promovem a construção de novos microtúbulos, garantindo assim o suprimento energético das terminações nervosas e prevenindo a neuropatia.

Novos Horizontes Terapêuticos e Ensaios Clínicos

Especialistas como Maria Maiarú, da Universidade de Reading, comentam que o estudo amplia significativamente o campo de aplicação terapêutica dos psicodélicos, indo além do tratamento de transtornos de humor e dor emocional. A descoberta sugere um papel crucial dessas substâncias na proteção do sistema nervoso contra danos colaterais de terapias anticancerígenas. O próximo passo, segundo Maiarú, é traduzir esses achados mecanísticos em ensaios clínicos bem planejados.

O próprio grupo do MD Anderson já está avançando nesse sentido com o lançamento do teste clínico NeuroGuard, que visa reproduzir os efeitos protetores da psilocibina em pacientes humanos com câncer de mama, colorretal e de cabeça e pescoço, submetidos a regimes quimioterápicos neurotóxicos. O objetivo é não apenas prevenir a neurotoxicidade, mas também melhorar a qualidade de vida desses pacientes.

No entanto, os pesquisadores alertam veementemente contra a automedicação com psilocibina por pacientes em quimioterapia. Moran Amit enfatiza que o uso não controlado, fora do contexto de ensaios clínicos rigorosos, pode ser irresponsável e perigoso. O MD Anderson possui experiência prévia com ensaios clínicos envolvendo psilocibina em pacientes oncológicos, como o estudo Trips, que investiga o potencial da substância para tratar depressão e ansiedade em pacientes com câncer.

O brasileiro Frederico Gleber Netto, que contribuiu significativamente para a análise, interpretação e apresentação dos dados do estudo, incluindo a parte estatística e a geração de figuras para o artigo, vem se dedicando à neurociência do câncer há cerca de cinco anos. Sua pesquisa foca na comunicação entre neurônios, células tumorais e o sistema imunológico, e como essas interações influenciam o comportamento do câncer. Sua trajetória acadêmica inclui formação em patologia oral, doutorado em genômica do câncer e um pós-doutorado em Houston, onde se juntou ao grupo de Moran Amit.

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