O fascínio pela sobriedade tem ganhado força, impulsionado por um movimento que incentiva a questionar o consumo de álcool. No entanto, para muitos, parar de beber transcende a ideia de uma tendência passageira ou um estilo de vida aspiracional, representando uma batalha pela sobrevivência. A escritora Ruby Warrington, em seu livro “Movimento Sober Curious”, propõe que a decisão de reduzir ou abandonar o álcool não exige um diagnóstico formal de alcoolismo, incentivando uma reflexão sobre a relação individual com a bebida.
A normalização do álcool na sociedade contemporânea é inegável. Ele está presente em celebrações, momentos de lazer, interações profissionais e até mesmo como um suposto ritual de autocuidado. Recusar uma taça, portanto, frequentemente demanda justificativas, o que valida a iniciativa de Warrington em desafiar essa cultura e reforçar que a escolha pela sobriedade é legítima em qualquer circunstância.
Contudo, a crítica surge quando essa jornada de autoconhecimento e abstinência é embalada pela linguagem sedutora das tendências de bem-estar. O movimento “sober curious” pode, por vezes, ser associado a dietas da moda, retiros espirituais e rotinas de autocuidado cuidadosamente curadas para as redes sociais. Benefícios como melhor sono, perda de peso, pele mais saudável e aumento da produtividade são frequentemente destacados. Para aqueles que enfrentam a dependência química, essa apresentação pode soar superficial e até cruel.
A experiência de quem luta contra o alcoolismo difere radicalmente daquela de quem apenas experimenta um período sem beber por curiosidade. Para muitos, o álcool não é um hábito a ser observado, mas uma obsessão, uma necessidade e uma doença marcada pela perda de controle. Nesses casos, a sobriedade não é um acessório para uma vida mais equilibrada, mas um trabalho diário, árduo e muitas vezes doloroso, que envolve medo, vergonha, reparação e busca por ajuda especializada.
O privilégio por trás da tendência
A romantização da sobriedade como um estilo de vida também levanta questões sobre privilégio. Transformar a abstinência em um projeto de autoconhecimento é mais acessível para aqueles que dispõem de tempo, recursos financeiros, apoio emocional e acesso a terapias. Para indivíduos que lidam com a dependência em contextos de desemprego, violência, doenças crônicas, solidão e falta de assistência, a decisão de parar de beber não se encaixa em narrativas fotogênicas acompanhadas de frases inspiradoras.
Embora o livro de Warrington possa servir como um ponto de partida importante para quem desconfia de sua relação com o álcool, é fundamental reconhecer que, para muitos, o caminho da sobriedade não é um cenário elegante, mas uma luta diária de uma pessoa assustada para atravessar mais um dia sem beber. A curiosidade, por sua natureza, permite o recuo, algo que o alcoolismo não oferece. A liberdade de experimentar um período sem álcool e retornar à moderação é uma realidade distante para quem enfrenta a dependência.
A discussão sobre o álcool precisa ser mais honesta e menos embellecida. É essencial acolher tanto aqueles que desejam reduzir o consumo quanto aqueles que não podem beber nunca mais, sem transformar uma doença em moda ou a recuperação em um produto de mercado. Para muitos, a sobriedade não é uma tendência, mas uma necessidade vital, uma distinção que não deve ser tratada como um mero detalhe editorial.
