A psicoterapeuta Esther Perel, renomada por seus estudos sobre relacionamentos, aponta que a sociedade contemporânea, imersa em telas e na lógica da produtividade, tem criado novas formas de aprisionamento afetivo, paradoxalmente aumentando a solidão e a insegurança.
Em uma era dominada pela tecnologia e pela busca incessante por otimização pessoal, as relações humanas enfrentam um novo tipo de aprisionamento. Segundo a psicoterapeuta belga Esther Perel, 68, a qualidade de vida está intrinsecamente ligada à qualidade dos nossos relacionamentos, e as dinâmicas atuais estão minando essa conexão. Em entrevista durante sua participação no festival SP2B, em São Paulo, Perel destacou que, duas décadas após o lançamento de seu best-seller “Sexo no Cativeiro”, os cativeiros contemporâneos são mais insidiosos e, por vezes, autoinfligidos.
Perel observa que a busca por um “eu” idealizado, constantemente aprimorado e otimizado, tem levado a um isolamento crescente. Essa dedicação solitária ao autoaperfeiçoamento, em vez de preparar para o amor, resulta em mais solidão e insegurança, ao contaminar as relações com a lógica da produtividade. Tratamos a nós mesmos e aos outros como produtos a serem aperfeiçoados, perdendo a espontaneidade e a profundidade necessárias para a intimidade genuína.
A solução proposta pela especialista é contraintuitiva: a reconstrução da vida íntima passa pela revitalização da vida coletiva e pelo resgate de experiências compartilhadas. Em vez de encontros focados apenas na conversa, Perel sugere a proposição de atividades conjuntas, como aulas, esportes, exposições ou shows, que promovam o envolvimento sensorial e a presença mútua. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados por O Globo e pelo podcast “Where Should We Begin?” de Esther Perel.
O Cativeiro Digital e a Atrofia Social
Para Perel, o “novo cativeiro” reside em uma vida cada vez mais produtiva e desencarnada. A rotina mediada por telas, a ausência de toque e a paisagem digital achatada têm atrofiado nossos sentidos e a capacidade de lidar com a alteridade. “Falta atrito, falta alteridade, não convivemos com gente suficientemente diferente de nós”, afirma. Essa atrofia social se manifesta na diminuição de contextos de contato e na perda de profundidade, tanto no âmbito íntimo quanto no coletivo, resultando na ausência da presença, elemento fundamental para nos sentirmos vivos.
Uma pesquisa conduzida por Perel, “Raio-x da vida afetiva: como o brasileiro vive e o que quer do amor 2025–2026”, revelou que a “presença ausente” é a maior violência nas relações. Compartilhar o mesmo espaço físico, mas cada um imerso em seu celular, sem contato, caracteriza essa dinâmica. Parceiros tornam-se meras unidades funcionais, mas sofrem com a erosão do vínculo romântico devido a essa falta de conexão genuína.
Resgatando a Presença e a Vitalidade
A reconstrução da intimidade, segundo Perel, não se trata apenas de reconectar casais, mas de reconectar as pessoas com a própria sensação de estarem vivas. A “boa convivência” superficial, sem intencionalidade, é nociva, configurando uma “perda ambígua”, como descrita pela psicóloga Pauline Boss: um luto contínuo pela ausência emocional do outro, mesmo quando fisicamente presente.
A solução reside em mudar a relação com o coletivo. Criar situações que convidem as pessoas a se entregarem umas às outras e a se reunirem em grupos menores que estimulem a atenção mútua. A vitalidade, argumenta Perel, mora no encontro com o diferente. Ela incentiva a conversa com estranhos e, mais importante, a participação em experiências compartilhadas que tragam o corpo e os sentidos de volta à cena. “Troque o ‘falar com’ pelo ‘fazer com'”, aconselha, sugerindo atividades conjuntas em vez de meros jantares para conversar.
Ansiedade, Metacrise e o Encanto do Controle
Em um mundo marcado pela “metacrise” – a sobreposição de crises como instabilidade econômica, emergência climática e excesso de informação –, a ansiedade se torna uma resposta social. Perel critica a tendência de tratar problemas coletivos como falhas individuais, sendo medicada ou trabalhada na terapia. A ansiedade é, muitas vezes, uma resposta emocional a um mundo instável e sem chão comum, onde a busca por segurança leva à medição e otimização de todos os aspectos da vida, incluindo os afetos.
A confiança, em tal cenário, é definida por Perel como um “engajamento ativo com o desconhecido”, um salto de fé. A necessidade de monitoramento constante, como o caso de um em cada quatro brasileiros que já foram vítimas de monitoramento abusivo pelo celular, mina a possibilidade de confiança. “Quanto mais você vigia, mais alimenta a ideia de que não há confiança possível e de que é preciso controlar”, alerta.
Inteligência Artificial e o Capitalismo Emocional
A inteligência artificial, embora possa ser uma ferramenta útil em certas situações, como na escrita de uma carta, representa um perigo quando usada para evitar sentimentos e incertezas. Perel descreve isso como “capitalismo emocional”, onde importamos a lógica do mercado para o afeto, tratando sentimentos como ativos a serem administrados e descartados. A busca por uma perfeição imposta pela lógica de “ser uma melhor versão” nos impede de aceitar a imperfeição do outro e a nossa própria, gerando um ciclo vicioso onde, quanto mais nos aprimoramos, menos suficientes nos sentimos.
A psicoterapeuta lamenta a perda da “relacionalidade” brasileira, que antes possuía um vocabulário rico para a vida interior, como “saudade” e “ficar”. O “fingir ser uma coisa e ser outra”, o brincar e a exposição parcial de si, permitiam um processamento mais lúdico da vida. O conselho final de Perel para o público brasileiro é retornar a essa capacidade de brincar, de fazer as pazes com o risco, com a parcialidade, com as experiências e com as múltiplas versões de si mesmo, reencontrando a vitalidade nas relações.
