Investigadores descrevem sofisticada rede de influência política e corporativa ligada ao Banco Master
Um relatório da Polícia Federal (PF), com sigilo recentemente derrubado pelo ministro André Mendonça do STF, detalha o que os investigadores classificam como uma complexa estrutura voltada para a captação de agentes públicos e a influência política, com ramificações que alcançariam o governo federal e o Congresso Nacional. O foco da apuração recai sobre os gestores do Banco Master, Daniel Vorcaro e Augusto Lima, e suas supostas ações para proteger e expandir os negócios do conglomerado.
O documento de 98 páginas, endereçado ao STF, sugere que partes da estrutura governamental e do processo legislativo podem ter sido direcionadas a servir interesses privados em troca de benefícios indevidos. A PF aponta que a influência do Master não se restringiria a um único gabinete no Legislativo, com a conduta de outros parlamentares sendo investigada em frentes distintas da apuração.
Mensagens extraídas de dispositivos dos investigados indicam que o banco buscava cultivar uma imagem de forte presença nos escalões superiores do poder, tanto no Legislativo quanto na administração federal. Essa percepção seria utilizada como uma ferramenta de marketing, com Vorcaro chegando a comentar, em 2025, sobre quais figuras do governo apoiariam a aquisição do Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB).
Vorcaro teria mencionado nomes como Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil, o senador Jaques Wagner (PT-BA) e Alexandre Silveira, ministro de Minas e Energia, como potenciais aliados estratégicos para a operação. Embora nenhum deles seja investigado formalmente, as menções em conversas de Vorcaro sugerem que executivos do Master viam figuras de alto escalão como possíveis apoios em questões regulatórias que dependiam de órgãos como o Banco Central. A operação de aquisição do Master pelo BRB foi, de fato, barrada pelo Banco Central meses antes da liquidação extrajudicial do Master.
A proximidade com o Poder Executivo Federal era vista pelos gestores do Master como um ativo publicitário. Em julho de 2024, um diretor comercial teria se gabado de sua influência com nomes supostamente ligados ao alto escalão governamental. Vorcaro, ao perceber uma oportunidade de autopromoção, teria instruído o subordinado a transformar essa proximidade em material de divulgação, direcionando-o explicitamente para o presidente Lula e a base aliada. A comunicação para chegar a esses alvos passaria por supostos intermediários do grupo junto ao governo, incluindo o gabinete de Jaques Wagner.
Investigação sobre apartamento e movimentações financeiras
Um dos focos da investigação policial é a aquisição de um apartamento de luxo em Salvador, avaliado em R$ 2,45 milhões. A PF aponta indícios de que o imóvel, embora adquirido por Augusto Lima, seria destinado ao senador Jaques Wagner. Para ocultar o beneficiário, o grupo teria utilizado um complexo fluxo financeiro, envolvendo um fundo de investimento e uma empresa de fachada registrada em nome de um indivíduo que seria um laranja, com participação milionária em empresas do ecossistema Master.
O suposto envolvimento de Jaques Wagner no caso do apartamento teria surgido a partir de mensagens onde um interlocutor, chamando o senador de “pai”, solicitava dados do proprietário para um projeto de reforma. Wagner teria repassado a demanda a Augusto Lima, que forneceu o contato dos responsáveis pela blindagem financeira do bem. Uma mensagem interpretada pela PF como cifrada, mencionando “A altura do vão é 2,45m”, seria uma referência direta ao valor do imóvel.
A investigação também aponta para repasses milionários à BN Financeira (ou BN Representações), empresa de uma nora e um enteado do senador, sem a devida contrapartida de serviços. A empresa declarou que os valores se referem a serviços de prospecção e indicação de operações de crédito consignado, com pagamentos formalizados e documentados. Jaques Wagner negou a indicação da empresa ao Master.
Um registro considerado contundente pela PF é uma transferência de R$ 3,5 milhões realizada por uma empresa do grupo Master que opera o Credcesta, em outubro de 2025, pouco antes da liquidação do banco. Diálogos interceptados sugerem que uma pessoa próxima ao senador cobrava o cumprimento de pagamentos de Augusto Lima. Um mês antes, Lima teria associado dificuldades de honrar pagamentos ao insucesso regulatório do banco na operação com o BRB, indicando que a situação impactava o fluxo de repasses ao suposto núcleo de apoio, o que a PF vê como um possível circuito de contrapartidas recíprocas.
Atuação parlamentar e benefícios logísticos sob suspeita
A linha de investigação sugere que Jaques Wagner pode ter atuado como um representante do banco no Congresso, em troca de benefícios. Dois casos são destacados como exemplos de possível atuação parlamentar encomendada: a conversão da Medida Provisória 1.106/2022 em lei, que ampliou as margens do crédito consignado – mercado em que o Master, via Credcesta, era um grande operador – e a PEC 65/2023, que propunha elevar o limite do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Mensagens interceptadas indicam que essa última medida era vista como crucial para a captação de recursos de grandes investidores.
Além disso, a PF documentou cinco ocasiões em que Jaques Wagner e sua família teriam utilizado jatos e helicópteros do grupo Master para viagens, com instruções de Vorcaro para que os voos fossem discretos e rápidos, a fim de evitar registros. Ingressos de camarote para shows internacionais, no valor de quase R$ 67 mil, também teriam sido custeados pelas estruturas financeiras do Master para familiares do senador.
A PF descreve o Master como um “hub financeiro, patrimonial e logístico” que visava cooptar agentes públicos de alto escalão. O uso de fundos de investimento, empresas de fachada e linguagem cifrada indicariam a consciência da ilicitude e tentativas de obstrução da justiça. Para os delegados, a atuação de Wagner e o envolvimento de nomes do governo federal fariam parte de uma estratégia de “inteligência criminosa” para garantir impunidade e lucro de uma organização que fraudou o sistema financeiro. As medidas cautelares solicitadas ao STF buscam rastrear a extensão dessa influência e identificar outros possíveis membros capturados pela suposta engrenagem.
As defesas de Daniel Vorcaro e Augusto Lima já negaram anteriormente as acusações de irregularidades. Os advogados de Vorcaro afirmam que ele é inocente das acusações de fraude e que não houve crimes na gestão do Banco Master. A defesa de Lima, por sua vez, considera as diligências “desnecessárias”, alegando que o empresário está à disposição das autoridades há meses e que sempre atuou dentro dos limites da lei.
