A Marinha dos Estados Unidos estuda uma reformulação substancial em seus novos porta-aviões para atender a um pedido peculiar do presidente Donald Trump: que a frota exiba um visual semelhante aos navios da Segunda Guerra Mundial. A potencial mudança, que visa alterar o posicionamento da “ilha” (torre de comando) para mais próximo do centro da embarcação, levanta preocupações sobre custos na casa dos bilhões e possíveis atrasos na entrega dos navios. As informações foram divulgadas pelo jornal The Washington Post.
O interesse de Trump pelo design de navios de guerra não é novidade. No ano passado, ele propôs a criação de uma nova classe de encouraçados, batizada de “Frota Dourada”, que recebeu críticas de especialistas navais e parlamentares por ser um projeto desnecessário e desperdiçar a capacidade de construção naval americana. O Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) estimou que essa “classe Trump” poderia custar cerca de US$ 275 bilhões ao longo de 30 anos.
A classe Ford, base aérea móvel de propulsão nuclear, representa a vanguarda da engenharia naval dos EUA, equipada com catapultas eletromagnéticas para lançamento de jatos. O USS John F. Kennedy está em fase de testes, enquanto o USS Enterprise e o USS Doris Miller seguem em construção. O primeiro navio da classe, o USS Gerald R. Ford, já está em serviço e concluiu recentemente uma missão no Oriente Médio. A incorporação de novas tecnologias, como as catapultas eletromagnéticas, já gerou atrasos significativos na construção, com o USS Gerald R. Ford levando 17 anos para ficar pronto.
Custos e desafios técnicos em xeque
A proposta de realocar a “ilha” dos porta-aviões da classe Ford, atualmente posicionada na popa por razões de eficiência e segurança, seria a segunda grande alteração de design impulsionada pelo presidente. A Marinha optou pela localização atual para otimizar o espaço no convés para estacionamento de aeronaves e agilizar os lançamentos, além de melhorar a segurança dos pousos. Três oficiais familiarizados com o programa confirmaram ao The Post que a posição atual é vantajosa para a operação.
Fontes internas e ex-oficiais da Marinha alertam que a alteração proposta seria “extremamente disruptiva”. Um estudo anterior sobre o tema, realizado no primeiro mandato de Trump, concluiu que o redesenho custaria bilhões e atrasaria consideravelmente o programa. Bryan Clark, ex-oficial naval e pesquisador do Hudson Institute, avalia que a mudança afetaria a flutuabilidade e o peso da embarcação, exigindo um esforço de engenharia monumental.
Pressão sobre a frota em meio a tensões globais
A discussão sobre a nova geração de porta-aviões ocorre em um momento de alta demanda sobre a frota atual. Em meio a tensões com o Irã, os Estados Unidos mantêm dois grupos de porta-aviões operando no Oriente Médio, sustentando operações e bloqueios. A frota em serviço tem enfrentado problemas crônicos de manutenção atrasada e baixos índices de prontidão, agravados pela frequente mobilização para crises globais. O USS Abraham Lincoln, por exemplo, está em missão de combate contínua há mais de 250 dias, um recorde operacional.
Relatos sobre a deterioração das condições a bordo do USS Abraham Lincoln levaram parlamentares democratas a pedir investigações. Familiares de marinheiros expressaram preocupação, e a Marinha apura um incidente possivelmente ligado a problemas de saúde mental. Apesar das denúncias, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, classificou os relatos como “completamente deturpados”, e Trump minimizou o tempo de missão do navio. O desgaste da tripulação e as dificuldades operacionais levaram à ordem de envio do USS George Washington para substituir o Lincoln na região.
