Avanço do crime organizado em estruturas públicas gera preocupação e pode redefinir cenários eleitorais.
Uma série de operações policiais no Rio de Janeiro tem exposto a crescente sofisticação do crime organizado, que demonstra capacidade de infiltrar-se em esferas econômicas e administrativas do Estado. Especialistas alertam que esse fenômeno, com indícios de se replicar em outras regiões do Brasil, eleva a pressão sobre as instituições e lança uma sombra sobre a próxima disputa eleitoral.
Na última sexta-feira (14), a Polícia Federal realizou buscas em endereços ligados ao ex-governador Cláudio Castro (PL-RJ). Esta foi a terceira vez em poucos meses que o político se tornou alvo de operações distintas da PF. As investigações apuram suspeitas de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e manipulação de mercado, entre outros crimes, especialmente relacionados à comercialização de combustíveis.
As ações, autorizadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), derivam de uma ampliação do escopo da ADPF das Favelas. Em 2025, o STF determinou que a PF investigasse organizações criminosas no Rio e suas possíveis conexões com agentes públicos, o que levou operações como a Sem Refino e Unha e Carne a terem medidas submetidas diretamente à corte superior.
A defesa de Castro afirmou desconhecer que o ex-governador fosse alvo direto da operação em Petrópolis, indicando que o imóvel em questão era alugado e o contrato encerrado após o fim de seu mandato. A assessoria negou que a residência atual de Castro tenha sido alvo de busca. Anteriormente, Castro já havia retirado sua candidatura ao Senado após ser investigado na operação Compliance Zero.
Autoridades do Rio de Janeiro sob Investigação
Além de Cláudio Castro, outras figuras públicas do Rio de Janeiro foram atingidas por operações como a Sem Refino e a Unha e Carne, que investigam possíveis ligações com organizações criminosas, incluindo esquemas de lavagem de dinheiro em postos de combustíveis com participação de agentes públicos.
O criminalista Márcio Nunes destaca que o desafio transcende a repressão financeira: “A suspeita é que organizações com grande capacidade econômica estão construindo relações dentro do Estado para proteger negócios, ampliar influência e dificultar mecanismos de controle”. Essa infiltração aumenta a urgência para que instituições e partidos políticos demonstrem sua capacidade de impedir que estruturas criminosas influenciem decisões estatais.
“Quando se fala em crime organizado, se pensa em facções, narcotráfico. Mas, em todas essas operações, a PF apura a atuação de organizações criminosas em diferentes áreas”, alerta o cientista político Gustavo Alves, ressaltando a amplitude das investigações que vão além do tráfico.
Impacto na Cena Política e Eleitoral
A operação Unha e Carne, em particular, tem gerado repercussões significativas, com potencial para atingir esferas em Brasília e outros estados. A investigação apura a infiltração do crime organizado no poder, pressionando facções, bicheiros e milicianos.
Entre os alvos da Unha e Carne está o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar (União), que planejava disputar o governo do estado. Sua defesa nega qualquer envolvimento com os fatos apurados e com organizações criminosas. Outro nome afetado foi o do ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União), cuja candidatura ao Senado foi descartada após se tornar alvo da operação. Canella já havia sido preso em flagrante por porte de fuzil, situação que sua defesa atribuiu a um policial que o escoltava.
Uma lista com 20 nomes de políticos encontrada com um bicheiro levanta a possibilidade de envolvimento de figuras de esquerda, centro e direita. Analistas preveem que novas fases das investigações possam alcançar agentes políticos de outros estados e políticos fluminenses com atuação em Brasília.
Modus Operandi e Conexões Ampliadas
Segundo a PF, o grupo investigado é suspeito de vazar informações estratégicas, lavar dinheiro e cometer fraudes com recursos públicos. A metodologia, no entanto, não parece ser isolada e pode estar sendo replicada pelo país. O esquema envolveria o vazamento de informações sigilosas sobre operações policiais, uso de influência em órgãos públicos e no sistema de Justiça para beneficiar investigados, além da proteção de atividades ilícitas como tráfico, jogo do bicho, milícia e contrabando de cigarros.
Empresas de fachada, postos de combustíveis e laranjas eram utilizados para ocultar patrimônio e lavar dinheiro. Documentos indicam pagamentos periódicos de propina e uma suposta rede de políticos para garantir apoio institucional e dificultar a responsabilização dos envolvidos.
Para Gustavo Alves, o poder das organizações criminosas de influenciar decisões do Estado e políticas públicas é cada vez mais evidente. “Quando uma investigação revela possíveis conexões entre facções, agentes públicos, lavagem de dinheiro e estruturas políticas, ela deixa de ser uma ação policial e passa a ser uma investigação sobre a própria capacidade do Estado de se proteger”, afirma.
O doutor em Direito Luiz Augusto Módolo aponta que o alto custo das campanhas e a disputa por influência política criam ambientes vulneráveis à aproximação entre agentes públicos e criminosos. Ele lembra que a classificação de facções brasileiras como terroristas pelos EUA aumenta a pressão para que o Brasil demonstre capacidade de combatê-las.
O constitucionalista André Marsiglia avalia que, se confirmadas as suspeitas, as operações provocarão mudanças políticas, reconfiguração de alianças partidárias e maior pressão por mecanismos rígidos de controle sobre a administração pública. O investigador aposentado Sérgio Gomes acrescenta que o impacto dessas investigações, que examinam conexões entre políticos, criminosos e lavagem de dinheiro, transcende o âmbito local.
Desdobramentos e a Luta pelo Estado
As investigações indicam que organizações criminosas expandiram sua influência para além dos territórios de tráfico, alcançando setores da economia formal, política e administração pública. Isso eleva a pressão sobre as instituições brasileiras para demonstrarem capacidade de enfrentar criminosos que construíram redes financeiras, políticas e institucionais complexas.
Desdobramentos já atingiram lideranças políticas de destaque nacional, e nomes de peso na cena política ainda podem surgir, colocando candidaturas sob pressão e mobilizando decisões judiciais de alta instância. Módolo sugere que as operações têm potencial para se tornarem um marco nacional ao provar a expansão da influência criminosa dentro e fora do Estado.
A operação Unha e Carne originou-se da investigação sobre o deputado estadual TH Joias, suspeito de usar o mercado de joias para movimentações financeiras de facções. A defesa negou as acusações. A base jurídica no STF para esta operação também envolve a ADPF das Favelas. O desembargador Macário Ramos Júdice Neto teve prisão preventiva decretada, mas sua defesa negou vazamentos de informações. Fases posteriores da operação focaram em desvios de recursos na educação, levando à prisão do deputado estadual Thiago Rangel e outros investigados.
A quinta fase da Unha e Carne apontou conexões entre o Comando Vermelho, a Máfia do Cigarro e bicheiros. A sexta fase investigou a lavagem de R$ 7,6 bilhões em seis anos através de postos de combustíveis, atingindo Márcio Canella. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Polícia Federal e reportagens jornalísticas.
