Vacina contra HPV mostra efeito coletivo e eficácia com dose única em estudo brasileiro
Vacina contra HPV mostra efeito coletivo e eficácia com dose única em estudo brasileiro

Vacina contra HPV mostra efeito coletivo e eficácia com dose única em estudo brasileiro

Brasileiros vacinados contra o HPV geram proteção em não vacinados Uma pesquisa pioneira no Brasil e na América Latina, conduzida pelo Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde, revelou descobertas significativas sobre a vacinação contra o HPV. O estudo POP-Brasil, que analisou dados de mais de 16 mil brasileiros entre 16 […]

Resumo

Brasileiros vacinados contra o HPV geram proteção em não vacinados

Uma pesquisa pioneira no Brasil e na América Latina, conduzida pelo Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde, revelou descobertas significativas sobre a vacinação contra o HPV. O estudo POP-Brasil, que analisou dados de mais de 16 mil brasileiros entre 16 e 25 anos, aponta que uma única dose da vacina é suficiente para conferir proteção equivalente a esquemas mais longos, e o mais notável: a imunização de uma parcela da população já é capaz de diminuir a circulação do vírus entre aqueles que nunca foram vacinados.

A pesquisa, que será publicada na renomada revista científica npj Vaccines, do grupo Nature, comparou dados coletados antes e depois da introdução da vacina no Sistema Único de Saúde (SUS). Entre as mulheres vacinadas, a prevalência dos tipos de HPV cobertos pela vacina despencou 81%, passando de 15,6% para 3,1%. No entanto, o achado mais impactante foi o efeito indireto observado na população: mesmo entre as mulheres não vacinadas, houve uma redução de 33% na circulação desses tipos de HPV.

“Isso se explica pela quantidade de vírus circulante. Quando eu tenho menos vírus circulante, eu tenho menos contatos e, portanto, eu começo a diminuir as taxas de prevalência na população em geral”, explica Eliana Wendland, pesquisadora do Hospital Moinhos de Vento e autora principal do estudo. Esse efeito de proteção coletiva, contudo, foi observado apenas entre as mulheres, que historicamente possuem maior adesão à vacinação contra o HPV.

Dose única e impacto desigual em homens

Um dos achados de maior relevância prática é a confirmação da efetividade da dose única. O estudo demonstrou que uma única aplicação da vacina protege tanto quanto o esquema anterior de duas ou três doses. Essa conclusão reforça a recente decisão do Ministério da Saúde de migrar para o esquema vacinal de dose única em 2024, uma estratégia já respaldada por evidências internacionais e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

A dose única apresenta vantagens adicionais, como a maior facilidade de adesão, uma vez que a taxa de retorno para a segunda dose historicamente é um desafio. Contudo, o estudo ressalta que grupos específicos, como pessoas com HIV e imunossuprimidos, continuam a seguir o esquema de três doses. A eficácia da vacina é maior quando administrada precocemente, antes dos 18 anos.

O efeito coletivo da vacinação, no entanto, não se repetiu entre os homens, que apresentam cobertura vacinal significativamente menor no país. A proteção comunitária foi visível apenas em faixas etárias mais jovens, até os 20-21 anos, período de maior adesão. A cobertura vacinal no Brasil é heterogênea, com médias nacionais que mascaram grandes disparidades regionais e de gênero. Enquanto a cobertura nacional entre meninas atingiu 86%, em estados como o Acre, a taxa cai drasticamente para 43%, um reflexo, segundo especialistas, de ondas de desinformação passadas.

Desafios e perspectivas futuras

A desigualdade na cobertura vacinal é um problema persistente, com diferenças marcantes entre estados e até mesmo dentro de regiões. O Ministério da Saúde tem investido em estratégias de microplanejamento para corrigir bolsões de baixa cobertura, incluindo a integração com escolas. A disparidade de gênero na vacinação é notória: a adesão entre meninos ainda é muito inferior à das meninas, reflexo de barreiras culturais e de acesso à informação.

Para combater essa percepção, é fundamental desmistificar a ideia de que a vacina contra o HPV é apenas para meninas. A imunização em meninos é crucial para prevenir não apenas verrugas genitais, mas também o câncer de cabeça e pescoço, incluindo o de orofaringe, que vem crescendo e já se equipara em prevalência ao câncer de colo do útero no Brasil.

O estudo também apontou reduções em outros tipos de HPV não cobertos pela vacina, sugerindo um efeito de proteção cruzada. É importante ressaltar que a pesquisa mede a prevalência da infecção, e não a incidência de câncer, que leva décadas para se manifestar. A meta é prevenir a infecção para que futuras gerações cheguem à vida adulta sem desenvolver doenças associadas ao HPV. Para alcançar a eliminação de cânceres ligados ao HPV, o Brasil precisa reforçar a vacinação para atingir 80% de cobertura em todos os estados e implementar o rastreamento por HPV-DNA.

A Organização Mundial da Saúde estabeleceu a meta de 90% de cobertura entre meninas até 14 anos até 2030. O Brasil, com otimismo e ambição de estender essa meta também aos meninos, já conta com 11 estados nesse patamar, sinalizando um caminho promissor na luta contra as infecções e cânceres relacionados ao HPV. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Hospital Moinhos de Vento e pelo Ministério da Saúde.

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