A espera que se tornou fatal
A mensagem de confirmação de uma consulta com psicólogo, enviada mais de dois anos após o pedido, chegou tarde demais para Sidelia Soares, de 58 anos, auxiliar de serviços gerais em Cuiabá (MT). Em agosto de 2024, ela tirou a própria vida, aos 58 anos, sem ter iniciado o acompanhamento psicológico que buscava para tratar depressão. Sua filha, Janaiara Soares, de 33 anos, lamenta a demora do Sistema Único de Saúde (SUS) e reflete sobre como um suporte profissional poderia ter feito a diferença.
Sidelia lutava contra a depressão há décadas, intensificada após a perda dos pais em 2023. Sua relutância em buscar ajuda, somada à longa fila de espera na rede pública de Cuiabá, criou um cenário de vulnerabilidade que, segundo a filha, poderia ter sido evitado. A Prefeitura de Cuiabá não respondeu aos contatos da reportagem sobre a situação.
As informações foram reunidas a partir de reportagem investigativa sobre a saúde mental no SUS.
Crise de Saúde Mental e Gargalos no SUS
O caso de Sidelia não é isolado e reflete um problema crônico no Brasil: as barreiras enfrentadas por pacientes que buscam tratamento para saúde mental no SUS. Especialistas apontam um histórico de dificuldades no atendimento, que se torna cada vez mais evidente diante do aumento global de casos de depressão e ansiedade. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019 indicam que 10,2% dos brasileiros adultos sofrem de depressão, um salto de 34,2% em comparação a 2013. Em 2024, mais de 546 mil afastamentos do trabalho foram concedidos por transtornos psíquicos, principalmente ansiedade e depressão.
O Ministério da Saúde afirma que tem investido na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) para fortalecer o acesso ao cuidado em saúde mental, com atendimentos disponíveis em Centros de Atenção Psicossocial (Caps), Unidades Básicas de Saúde (UBS), Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), entre outros.
Escassez de Profissionais e Desigualdade Regional
A principal causa das longas filas, segundo psiquiatras, é a insuficiência de psicólogos e psiquiatras na rede pública. Embora existam mais de 600 mil psicólogos registrados no Brasil, apenas 11,3 mil atuam no SUS. O número de psiquiatras na rede pública também é questionado, com dados divergentes entre o Ministério da Saúde e entidades médicas. Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o país tem menos de 15 mil psiquiatras formados, um número significativamente inferior à média de outros países desenvolvidos.
A distribuição desses especialistas é outro ponto crítico. A maioria se concentra nas regiões Sudeste e Sul, deixando o Nordeste, Centro-Oeste e Norte com cobertura deficitária. Essa desigualdade regional agrava o problema, pois o tempo de espera por atendimento varia drasticamente dependendo da localidade.
Subfinanciamento e Desafios Estruturais
Apesar de iniciativas como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que oferecem atendimento em regime de portas abertas, o número de unidades ainda é insuficiente para atender a demanda nacional. Especialistas apontam que o Brasil destina apenas 1% a 2% do seu orçamento de saúde para saúde mental, um percentual considerado baixo em comparação a países europeus. Esse “subfinanciamento crônico”, segundo o psiquiatra Rodrigo Leite, dificulta a expansão e o aprimoramento dos serviços.
A falta de diálogo entre os poderes municipal, estadual e federal também fragiliza a rede de saúde mental, gerando dificuldades na organização de fluxos e comunicação entre os serviços. Para Janaiara, o caso de sua mãe evidencia a urgência de tratar a saúde mental com a mesma prioridade de outras especialidades médicas, pois o acesso ao cuidado psicológico também pode salvar vidas.
