Cientistas investigam uso de sangue menstrual coletado em absorventes para rastreamento do HPV.
Uma nova abordagem para a detecção do papilomavírus humano (HPV), responsável pelo câncer de colo de útero, está sendo estudada a partir de amostras de sangue menstrual coletadas em absorventes. Um estudo realizado na China, com a participação de mais de 3.000 mulheres, demonstrou que este método alternativo apresentou um desempenho comparável ao exame convencional realizado por profissionais de saúde. A pesquisa, publicada na revista científica BMJ, sugere um potencial significativo para expandir o acesso ao rastreamento da doença, especialmente em regiões com baixa cobertura de exames ou onde barreiras de acesso à saúde persistem.
A infecção persistente por tipos de HPV de alto risco é o principal fator etiológico para o desenvolvimento do câncer de colo de útero, uma doença que causa centenas de milhares de mortes globalmente a cada ano. A capacidade de detectar o vírus de forma menos invasiva e mais acessível poderia representar um avanço crucial na prevenção e no controle desta neoplasia.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Agência Einstein.
Comparativo de Precisão Diagnóstica
Na pesquisa chinesa, o teste de HPV a partir do sangue menstrual coletado no absorvente alcançou uma sensibilidade de 94,7% na identificação de lesões cervicais de alto grau. Este índice é muito próximo ao do teste convencional feito por profissionais, que obteve 92,1% de sensibilidade. Foram avaliadas 3.068 mulheres entre 20 e 54 anos, com ciclos menstruais regulares, residentes em áreas urbanas e rurais. A principal métrica de avaliação foi a precisão diagnóstica para detectar lesões de grau 2 ou pior, e de grau 3 ou pior, ambas consideradas de alto risco para o desenvolvimento de câncer.
Embora a especificidade do método com sangue menstrual tenha sido ligeiramente menor (89,1% contra 90% do exame convencional), a capacidade de descartar a doença em mulheres sem lesões (valor preditivo negativo) foi idêntica nos dois métodos, atingindo impressionantes 99,9%. Isso indica que um resultado negativo no teste menstrual é altamente confiável.
Desafios para a Implementação Clínica
Apesar dos resultados promissores em termos de acurácia, a implementação prática deste novo método enfrenta obstáculos. Especialistas apontam que questões logísticas e de custo dos kits de coleta de HPV podem dificultar a sua substituição pelo modelo atual de rastreamento. A ginecologista Renata Bonaccorso Lamego, do Hospital Israelita Albert Einstein, ressalta que a entrega do material para a paciente sem o devido acompanhamento ou orientação sobre o que fazer com a informação pode ser um problema.
Outro ponto de atenção é o manejo dos resultados positivos. Enquanto um resultado negativo permite que a mulher repita o exame após cinco anos, um resultado positivo levanta diversas questões sobre o fluxo de atendimento no sistema de saúde e a orientação a ser dada às pacientes. Estima-se que cerca de 20% das mulheres brasileiras testem positivo para HPV, e a presença do vírus não implica necessariamente em lesão ou câncer. Apenas uma pequena porcentagem (3% a 7%) das mulheres com HPV positivo desenvolve lesões de alto grau ou câncer. Um aumento significativo de resultados positivos, mesmo que muitos sejam transitórios, poderia gerar ansiedade e sobrecarregar a demanda por exames complementares no sistema de saúde.
O Cenário do Câncer de Colo de Útero no Brasil
No Brasil, o câncer de colo de útero continua sendo um desafio de saúde pública. Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) projetam cerca de 19 mil novos diagnósticos anuais entre 2026 e 2028. A doença, no entanto, é prevenível através da vacinação contra o HPV e do rastreamento organizado, além de apresentar altas taxas de cura quando detectada precocemente e tratada adequadamente. A pesquisa sobre o uso do sangue menstrual como ferramenta de rastreamento surge como uma potencial estratégia para ampliar o alcance dessas medidas preventivas.
