Vieses no processo editorial de revistas científicas de alto impacto dificultam a publicação de pesquisadores de fora do eixo tradicional.
Uma análise recente de artigos submetidos às prestigiadas revistas científicas Science e Science Advances, entre 2015 e 2020, revelou a existência de vieses significativos que influenciam o processo de publicação. Os resultados indicam que cientistas afiliados a instituições de maior renome, localizadas na América do Norte, e, em menor grau, homens, têm maiores chances de ter seus trabalhos aceitos. Essas vantagens, que não estão diretamente ligadas à qualidade intrínseca das pesquisas, têm sido observadas por muitos cientistas há tempos, mas esta é a primeira vez que tais efeitos são quantificados em periódicos de tamanha envergadura.
A pesquisa, coordenada por Aaron Clauset, do Instituto Santa Fe e da Universidade do Colorado (EUA), analisou um banco de dados com mais de 110 mil manuscritos submetidos às publicações. A escolha da Science e da Science Advances se deu por serem consideradas revistas de ‘interesse geral’, cobrindo uma vasta gama de disciplinas científicas. O processo de seleção envolve uma triagem inicial por editores, seguida por uma avaliação mais aprofundada antes de, eventualmente, encaminhar o manuscrito para a revisão por pares (peer-review), etapa crucial onde cientistas da mesma área avaliam a solidez científica do estudo.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista Science Advances.
A peneira editorial e o fator ‘prestígio’
O estudo aponta que a fase inicial de triagem editorial é onde os vieses se manifestam com maior intensidade. Apenas uma pequena porcentagem dos manuscritos submetidos chega à fase de revisão por pares – 17,4% para a Science e 25,8% para a Science Advances. A taxa de publicação final é ainda menor, 6,1% e 10,5%, respectivamente. Como os editores realizam uma seleção inicial sem uma análise profunda do mérito científico de todos os trabalhos, fatores externos acabam influenciando a decisão.
Um dos vieses mais notáveis é o da afiliação institucional. Autores de universidades e institutos de pesquisa considerados de alto prestígio têm uma taxa de aceitação de 11,6%, contrastando com os 3,4% de pesquisadores de instituições menos renomadas. Da mesma forma, equipes maiores, com dez ou mais membros, apresentam um índice de sucesso de 9,9%, superior aos 3,3% de estudos com até cinco autores. A liderança de equipes de cientistas dos EUA e Canadá também demonstra uma vantagem competitiva, com 8,3% de sucesso em comparação com 2,5% de equipes lideradas por chineses, país que tem aumentado significativamente sua produção científica.
Gênero e área de pesquisa também influenciam
A análise também identificou uma diferença de sucesso entre coordenadores homens e mulheres, embora mais discreta: 6,4% para homens contra 5,3% para mulheres. Os autores sugerem que isso pode estar relacionado à predominância masculina em cargos de liderança em instituições de ponta. Além disso, na Science, há um privilégio para certas áreas de pesquisa. Estudos sobre vírus, infecções e o sistema imunológico têm uma taxa de publicação de 9,6%, enquanto pesquisas em política, economia e gênero alcançam apenas 1,7%.
É crucial notar que os vieses parecem concentrar-se na fase editorial, e não na revisão por pares. Isso sugere que, uma vez que um manuscrito supera a triagem inicial e chega aos revisores especialistas, a avaliação tende a focar mais no mérito científico. Essa constatação pode ser vista como uma notícia positiva para o sistema de revisão por pares, que tem enfrentado críticas devido à falta de anonimato completo e à precarização do trabalho voluntário dos revisores.
