O papel do psicólogo na vida do paciente: entre o apoio e a interferência
A linha que separa o aconselhamento profissional da interferência indevida nas decisões pessoais de um paciente pode ser tênue e, por vezes, mal compreendida. Relatos como o de Alice, que aos 23 anos ouviu de sua psicóloga que deveria doar a gata recém-adotada para priorizar o relacionamento amoroso, expõem a complexidade dessa relação. Segundo ela, a terapeuta justificou a orientação pelo incômodo que o animal causava ao namorado da paciente, que na época se sentia isolada e buscava no pet um conforto.
Especialistas como Joeder da Silva Messias, psicólogo e professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), enfatizam que o papel do terapeuta não é decidir pelo paciente nem indicar um caminho específico a seguir. Essa postura, de acordo com Messias, pode minar a autonomia do indivíduo e fomentar uma dependência prejudicial do profissional. A própria Alice não acatou o conselho sobre a doação do animal, mas outras orientações de sua terapeuta a incomodaram.
Em outra ocasião, a mesma psicóloga sugeriu que Alice tomasse a iniciativa sexual com o namorado, após a paciente relatar problemas no relacionamento. A terapeuta teria dito que a jovem estava “liberando pouco” e que ceder fazia parte do papel feminino. Messias aponta que a convivência com figuras de autoridade, como pais e chefes, pode reforçar a expectativa do paciente em receber instruções diretas, inclusive na área da saúde. “Muitas pessoas chegam na psicoterapia esperando respostas prontas e, quando encontram alguém disposto a oferecê-las, dificilmente percebem de início que essa conduta é inadequada”, afirma o professor.
Para a presidente do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Ivani Oliveira, preservar a autonomia do paciente não significa omissão. O profissional pode e deve auxiliar o indivíduo a identificar os fatores envolvidos em suas decisões, sempre considerando sua história de vida e contexto. No entanto, a decisão final deve sempre partir do próprio paciente. “O ideal que a pessoa tem para si não pode ser o ideal que o profissional tem para ela”, ressalta Oliveira.
A assimetria de poder na relação terapêutica
A relação terapêutica, por natureza, envolve uma assimetria de poder. O paciente, muitas vezes em um momento de vulnerabilidade, tende a enxergar o psicólogo como uma autoridade técnica. O Código de Ética Profissional do Psicólogo, de agosto de 2005, reconhece essa dinâmica e estabelece princípios como o respeito à liberdade, dignidade, igualdade e integridade. O código também proíbe expressamente que o profissional induza convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual, ou qualquer forma de preconceito.
O caso de Júlia Mauad Elias de Oliveira, de 22 anos, ilustra como a percepção de julgamento pode afetar a confiança na terapia. Ao relatar dificuldades em namorar por volta dos 16 anos, a jovem sentiu que sua psicóloga a rotulou como “fácil demais” por se envolver com muitas pessoas. “Eu comecei a mentir em todas as sessões”, conta Júlia, que se sentiu desamparada e passou a esconder informações por medo de novas críticas. A interrupção da terapia e a hesitação em buscar um novo profissional refletem o impacto de uma relação terapêutica que falhou em manter a segurança e a confiança.
Sinais de alerta e proteção ao paciente
Quando um paciente demonstra dificuldade em discordar do terapeuta, Ivani Oliveira sugere que esse incômodo seja trazido para a própria sessão, observando a reação do profissional. Introduzir temas que não partiram do paciente, como a sugestão de emagrecimento ou mudança de aparência sem que o assunto tenha sido levantado pelo indivíduo, podem ser sinais de alerta sobre a postura do terapeuta. Em casos de suspeita de infração ética, os Conselhos Regionais de Psicologia recebem denúncias para apuração.
A presidente do CFP também recomenda que, antes de iniciar o atendimento, os pacientes consultem o Cadastro Nacional de Profissionais de Psicologia para verificar se o psicólogo está devidamente habilitado. Alice, apesar de não ter seguido a orientação sobre sua gata, continuou com a mesma terapeuta, mas mudou a dinâmica das sessões, focando em desabafos sobre assuntos triviais. Ela justifica a escolha pela dificuldade em “encher o saco” de amigos e familiares, e pelo alto valor pago pelas consultas, esperando ser ouvida.
A experiência de Alice e Júlia ressalta a importância de uma relação terapêutica baseada na colaboração e no respeito mútuo, onde o paciente se sinta seguro para explorar suas questões sem receio de julgamentos ou imposições. A autonomia e a liberdade de escolha do indivíduo devem ser sempre o pilar central do processo psicoterapêutico.
