Nepal sofre com impactos climáticos enquanto contribuição para o aquecimento global é mínima
A recente avalanche de lama e gelo que devastou o Nepal, classificada como a tragédia de maior impacto econômico da história do país, expõe uma dura realidade: nações com contribuição insignificante para a crise climática são as que mais sofrem com suas consequências. O Nepal, responsável por apenas 0,05% das emissões históricas de gases de efeito estufa, é um exemplo flagrante dessa injustiça.
Manjeet Dhakal, especialista em diplomacia climática e negociador pelo grupo dos Países Menos Desenvolvidos (PMD) nas conferências da ONU, denuncia a disparidade. “Países que não contribuíram em praticamente nada para a crise climática estão pagando a maior parte da conta dos impactos climáticos. Essa desigualdade precisa ser enfrentada em âmbito global”, afirma Dhakal. As informações foram reunidas a partir de entrevista concedida por Manjeet Dhakal à Folha.
Promessas financeiras não cumpridas agravam vulnerabilidade
Dhakal ressalta que o descumprimento de promessas de financiamento por parte dos países ricos agrava a vulnerabilidade de nações como o Nepal, limitando sua capacidade de adaptação a eventos climáticos extremos. A falta de repasses financeiros adequados força os países mais pobres a redirecionarem recursos essenciais para saúde, educação e infraestrutura para lidar com os desastres climáticos, intensificando um ciclo vicioso de pobreza e endividamento.
Embora a dimensão exata do papel das mudanças climáticas no desastre específico do Nepal ainda esteja sob análise, o colapso de geleiras e o degelo do permafrost devido ao aquecimento global são causas conhecidas de instabilidade em regiões de grande altitude. O país tem enfrentado uma série de eventos extremos nos últimos anos, incluindo inundações causadas pelo rompimento de lagos glaciais e enchentes em vales de rios importantes.
Financiamento climático: uma meta distante e insuficiente
A meta global estabelecida é que os países ricos destinem US$ 300 bilhões anuais em recursos climáticos para nações em desenvolvimento até 2035. Contudo, o montante solicitado pelos países mais pobres é de US$ 1,3 trilhão. Uma promessa anterior, de US$ 100 bilhões anuais até 2020, só foi parcialmente cumprida em 2023.
“E não é que faltem recursos no âmbito global. Quando se trata de guerra, há recursos”, lamenta Dhakal, destacando a urgência de transformar a responsabilidade das nações emissoras em ações concretas e financiamento efetivo. Ele espera que o desastre no Nepal, assim como as inundações no Paquistão em 2022, sirvam como catalisadores para impulsionar a ação climática e o fluxo de financiamento para países montanhosos e vulneráveis.
Sistemas de alerta precoce e a necessidade de avanço tecnológico
O especialista aponta que sistemas de monitoramento e alerta precoce, quando funcionais, podem salvar vidas. No Nepal, embora mecanismos de comunicação tenham sido acionados, o tempo de aviso foi criticamente curto, de apenas 15 minutos em alguns casos. Isso permitiu que vidas fossem salvas, como a de alunos de uma escola, mas não evitou a destruição de bens materiais.
Dhakal enfatiza que a tecnologia para monitoramento de geleiras e sistemas de alerta em montanhas ainda precisa avançar significativamente e é extremamente custosa. A cooperação internacional é fundamental para desenvolver e implementar soluções eficazes que protejam as populações vulneráveis dos impactos cada vez mais severos da crise climática.
