Investigação sobre a OpenAI e a resolução de um dos sete Problemas do Milênio ganha contornos de polêmica.
A OpenAI, gigante da inteligência artificial, encontra-se no centro de uma controvérsia após anunciar ter resolvido o problema de Navier-Stokes, uma das sete questões matemáticas propostas pelo Clay Mathematics Institute, cada uma com um prêmio de US$ 1 milhão para sua solução. No entanto, o anúncio, feito na última terça-feira (8), vem acompanhado de alegações de um matemático da Universidade de Nova York (NYU) de que a empresa pode ter utilizado indevidamente dados de pesquisa e trabalho alheio para alcançar tal feito.
Tristan Buckmaster, professor de matemática da NYU, relatou ter tido conversas com funcionários da OpenAI que levantaram sérias dúvidas sobre a origem do suposto avanço. Segundo Buckmaster, a empresa teria se aproximado dele após rumores de que sua pesquisa em colaboração com Levent Alpöge, funcionário da Anthropic (rival da OpenAI), estaria progredindo significativamente no mesmo problema. A OpenAI teria oferecido recursos computacionais e, posteriormente, tentado negociar a autoria de uma publicação, sugerindo inclusive a exclusão de Alpöge do crédito, o que gerou ainda mais desconfiança.
As informações foram reunidas a partir de relatos divulgados pelo próprio Tristan Buckmaster e declarações da OpenAI.
Suspeitas de uso de dados e pressões indevidas
Buckmaster detalhou que, após contatar um pesquisador da OpenAI para esclarecer boatos, foi convidado para uma reunião com Sebastien Bubeck, membro da OpenAI. Durante o encontro, foi informado sobre o suposto avanço da empresa na resolução do problema de Navier-Stokes. A abordagem utilizada pela OpenAI, no entanto, chamou a atenção do matemático da NYU, que a considerou incomum para uma solução alcançada em poucos dias.
A suspeita de que o trabalho de Buckmaster e Alpöge, que utilizavam modelos de IA como o Codex da OpenAI e o Claude da Anthropic, poderia ter sido acessado ou influenciado pela OpenAI tornou-se mais forte quando Buckmaster questionou diretamente sobre o treinamento do modelo. Ele teria sido informado que o modelo não consultava dados de usuários, mas uma resposta evasiva sobre o treinamento levantou ainda mais suspeitas. Posteriormente, em uma postagem pública, a OpenAI admitiu a possibilidade de dados anonimizados de uso terem contribuído para o aprimoramento de seus modelos, embora considerasse improvável.
Propostas e ameaças veladas
Durante a reunião, Buckmaster relatou ter recebido duas propostas: uma em que ele apresentaria um resultado de outro problema e a OpenAI publicaria a resolução de Navier-Stokes, e outra em que ele escreveria um artigo reconhecendo a solução da OpenAI. Em ambas, Bubeck teria insistido na exclusão de Alpöge da autoria, citando seu vínculo com a Anthropic. Buckmaster recusou as propostas, ameaçando tornar a situação pública caso a OpenAI procedesse com seus planos.
Foi nesse momento que Buckmaster teria ouvido a frase: “Por que você arruinaria sua carreira? Se você não quer que eu seja amigável, então não preciso ser”. O matemático da NYU, por sua vez, afirmou não ter visto a prova da resolução da OpenAI e que sua intenção ao relatar o ocorrido é evitar a disseminação de informações que considera falsas, ressaltando seu desejo de focar nas descobertas matemáticas em si.
Versões divergentes e o futuro da questão
Em contrapartida, Sebastien Bubeck, da OpenAI, negou ter pedido a exclusão de Alpöge da autoria, afirmando que a sugestão era de que, por ser funcionário da Anthropic, seria inadequado que ele assinasse um trabalho da OpenAI. Bubeck também alega que Buckmaster o ameaçou com uma “enxurrada de acusações infundadas” e que respondeu a todas as acusações, mas Buckmaster teria dito que não confiava nele.
A OpenAI parabenizou Buckmaster e Alpöge pelo trabalho matemático em sua postagem pública. Contudo, a polêmica levanta questões importantes sobre o uso ético de dados por empresas de IA, a transparência em pesquisas científicas e a pressão indevida em ambientes acadêmicos e de pesquisa. A comunidade científica aguarda mais esclarecimentos sobre a metodologia e a validade da suposta resolução do problema de Navier-Stokes pela OpenAI, bem como os desdobramentos das alegações de uso indevido de dados e intimidação.
