O Luto Silencioso dos Corredores que Têm que Abandonar o Esporte
O Luto Silencioso dos Corredores que Têm que Abandonar o Esporte

O Luto Silencioso dos Corredores que Têm que Abandonar o Esporte

A Corrida como Identidade e a Dor da Despedida Para muitos, correr é mais do que uma atividade física; é uma terapia, um ritual diário, uma forma de meditação e, frequentemente, a base de sua identidade social. No entanto, quando lesões ou doenças crônicas forçam o abandono desse esporte, a perda pode ser devastadora, desencadeando […]

Resumo

A Corrida como Identidade e a Dor da Despedida

Para muitos, correr é mais do que uma atividade física; é uma terapia, um ritual diário, uma forma de meditação e, frequentemente, a base de sua identidade social. No entanto, quando lesões ou doenças crônicas forçam o abandono desse esporte, a perda pode ser devastadora, desencadeando um luto profundo e complexo. Essa transição, muitas vezes inesperada, impacta não apenas o corpo, mas também a saúde mental e o senso de autovalor dos corredores.

Jamie Panzarella, 51 anos, de Austin, Texas, descreve a sensação de correr como ser “livre e selvagem”, quase como um sonho. Após completar cinco maratonas e mais de 20 meias maratonas, a artrite degenerativa em seus dedos dos pés tornou cada passada dolorosa, impossibilitando o retorno ao ritmo que tanto amava. Seu médico a alertou sobre um “balde finito de quilômetros”, forçando-a a confrontar a dura realidade: parar de correr para preservar a mobilidade futura.

Para os aproximadamente 50 milhões de americanos que correm regularmente, o esporte é um pilar fundamental. A psicóloga clínica especializada em esportes, Justin Ross, explica que a corrida é uma das formas mais eficazes de regulação do humor. Sua ausência pode levar ao aumento da irritabilidade, dificuldade em lidar com o estresse, humor deprimido e até depressão leve, pois a corrida se integra à forma como a pessoa se entende e se relaciona com o mundo.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The New York Times.

O Impacto Emocional e a Perda de um “Amigo”

A decisão de parar de correr é comparada por alguns a contemplar um divórcio ou a perda de um ente querido. Dimity McDowell, cofundadora da comunidade Another Mother Runner, detalha sua experiência em seu livro “The 27th Mile”. Após ignorar dores persistentes no quadril, joelho e posterior da coxa, ela fez sua última corrida em janeiro de 2020. A dor emocional a pegou de surpresa, levando-a a buscar aconselhamento psiquiátrico, onde foi diagnosticada com um tipo de luto.

McDowell ressalta que a identidade de corredor carrega consigo conotações de disciplina e ambição. Abdicar dessa imagem pode parecer a perda de uma companhia próxima, uma amiga íntima com quem se passava cinco vezes por semana. “Eu realmente pensava na corrida como uma das minhas melhores amigas”, confessa. A necessidade de se “afastar” dessa companheira é um processo doloroso.

Doenças Crônicas e a Interrupção Forçada

Nem sempre as lesões são a causa. Doenças como a Covid longa e a Síndrome da Fadiga Crônica (encefalomielite miálgica) também forçam corredores a abandonar a atividade. Matt Fitzgerald, 55 anos, autor e treinador, que completou 50 maratonas, foi diagnosticado com Covid longa em 2020 e se viu incapaz de andar. Diferente de muitas lesões, onde se pode encontrar uma alternativa, Fitzgerald descobriu que o exercício piorava seu estado, levando a três anos sem correr e a recaídas.

Maggie Boxey, 47 anos, enfrentou uma jornada similar. Após uma infecção viral, sentia exaustão crônica após as corridas por cerca de quatro anos, sem diagnóstico claro. Em fevereiro de 2024, fez sua última corrida, pouco antes de ser diagnosticada com encefalomielite miálgica. Os colapsos pós-corrida eram sinais da doença progressiva. Atualmente, Boxey usa cadeira de rodas e está majoritariamente acamada, lamentando a perda da corrida como sua forma de conhecer pessoas, explorar o mundo, meditar e socializar.

O Caminho para a Reconstrução da Identidade

Para aqueles que precisam deixar a corrida para trás, o psicólogo esportivo Jack Lesyk sugere que o foco não deve ser encontrar um substituto imediato, mas sim reconstruir o senso de identidade. É um processo de equilíbrio, onde a identidade de corredor que desaparece precisa ser preenchida por algo novo.

Matt Fitzgerald encontrou seu novo propósito ao abrir o Dream Run Camp, um acampamento para adultos onde treina corredores, servindo à comunidade que ama mesmo sem poder participar ativamente. Dimity McDowell passou a praticar caminhadas de longa distância. Jamie Panzarella descobriu o tênis, um esporte que exige foco no presente e que lhe oferece o que a corrida não podia mais: a ausência de espaço para divagar.

Embora nenhum deles afirme que a nova atividade seja igual à corrida, a comunidade, o movimento e o tempo pessoal, elementos essenciais do esporte, foram reencontrados, marcando um novo capítulo na jornada de cada um.

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