A optogenética, técnica que utiliza luz para controlar a atividade de células nervosas, foi a base para a concessão do Prêmio Nobel de Medicina de 2026 a Karl Deisseroth e aos cientistas alemães Peter Hegemann e Georg Nagel. A inovação promete lançar nova luz sobre o funcionamento complexo do cérebro e abrir caminhos para tratamentos mais eficazes de transtornos neurológicos e psiquiátricos.
O neurocientista americano Karl Deisseroth, 54, um dos laureados com o Nobel de Medicina deste ano, dedicou mais de duas décadas ao estudo do cérebro. Em entrevista à AFP, ele destacou a importância da optogenética, que combina engenharia genética e luz, para superar os desafios impostos pela complexidade cerebral. “Precisávamos de uma forma de distinguir [as células], de controlar uma sem afetar a outra”, explicou Deisseroth, professor da Universidade de Stanford. A técnica permite conferir a células específicas a capacidade de responder à luz, oferecendo um controle preciso sobre circuitos neurais.
A descoberta, que o Comitê do Nobel descreveu como a “descoberta de um interruptor molecular para as células nervosas”, possibilita ativar ou desativar grupos neuronais individuais. Isso tem sido crucial para identificar os circuitos cerebrais associados a memórias, emoções e comportamentos específicos, abrindo novas perspectivas para o tratamento de doenças como autismo, esquizofrenia e Parkinson. Deisseroth ressalta a dificuldade histórica em modelar doenças psiquiátricas, ao contrário de outras áreas da medicina como a cardiologia, onde o mau funcionamento de um órgão pode ser medido objetivamente. A optogenética, ao permitir quantificar se células estão hiper ou hipoativas, oferece uma ferramenta poderosa para essa lacuna.
Novas fronteiras terapêuticas impulsionadas pela luz
O impacto da optogenética na psiquiatria e neurologia se estende ao desenvolvimento de terapias. Ao identificar as células e circuitos envolvidos em determinadas condições, os pesquisadores podem direcionar o desenvolvimento de medicamentos com maior precisão, reduzindo a necessidade de suposições em ensaios clínicos. Atualmente, ensaios clínicos de fase 3, baseados em abordagens optogenéticas indiretas, já demonstram resultados promissores para o autismo e a esquizofrenia.
Deisseroth exemplifica o potencial terapêutico com o tratamento da irritabilidade em pacientes com autismo. Atualmente, as opções medicamentosas são limitadas a antipsicóticos com efeitos colaterais significativos, como ganho de peso e sedação. A optogenética abre caminho para medicamentos não antipsicóticos, mais específicos e com menor impacto adverso. No caso da doença de Parkinson, a técnica visa aprimorar o tratamento ao focar na modulação de circuitos específicos relacionados ao movimento, em vez de uma abordagem mais generalizada que afeta múltiplas funções cerebrais mediadas pela dopamina.
O futuro da neurotecnologia e a comunicação cérebro-máquina
A optogenética também pode influenciar o futuro das interfaces cérebro-computador (ICCs). Embora as ICCs sejam predominantemente baseadas em eletricidade, os métodos ópticos oferecem uma via alternativa para a comunicação neural. Deisseroth vislumbra a possibilidade de usar luz em vez de eletricidade para essa interação, embora reconheça que essa aplicação ainda está em um estágio mais distante de desenvolvimento. A capacidade de controlar e monitorar a atividade neuronal com precisão sem precedentes abre um leque de possibilidades para a compreensão e o tratamento de condições que afetam o cérebro humano.
As informações foram reunidas a partir de declarações de Karl Deisseroth à Agence France-Presse (AFP) e do anúncio do Comitê do Nobel.
