Em articulação sigilosa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), firmaram um acordo de conveniência mútua para fortalecer suas posições políticas e garantir a continuidade de seus projetos de poder. O arranjo, costurado nos meses que antecederam o início oficial da campanha eleitoral, busca proteção contra ameaças judiciais, impulsionamento de agendas com apelo eleitoral e o controle do avanço de adversários nas urnas, tendo como eixo central a reeleição de Lula, vista pelos líderes do Congresso como um escudo e um caminho para influência futura.
A aproximação entre os poderes Legislativo e Executivo foi motivada por uma preocupação comum com as investidas da oposição e as ações do Judiciário. A mudança mais significativa nesse cenário partiu de Davi Alcolumbre, que retomou o diálogo com o presidente Lula após um período de distanciamento iniciado em abril, quando o Senado barrou a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). A reconciliação teria se consolidado em um jantar na residência do ministro Alexandre de Moraes, do STF, no dia 4 de agosto, onde mágoas foram expostas e o clima de “jogo zerado” foi estabelecido.
A articulação se intensificou oito dias depois, em 12 de agosto, com um encontro entre Lula e Alcolumbre no Palácio da Alvorada. Essa segunda reunião em curto espaço de tempo selou o desbloqueio de pautas legislativas importantes. Aliados de Alcolumbre relataram uma “retomada integral” da relação, impulsionada pela necessidade mútua de ambos os lados.
As informações foram reunidas a partir de reportagens baseadas em fontes internas e apurações jornalísticas.
Agenda eleitoral aproxima políticos, mas cada um calcula os seus ganhos
Essa trégua política ocorreu em um momento de pressão do governo e de membros do STF para coibir o apoio de partidos do Centrão à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e, simultaneamente, de um esforço concentrado do Congresso em aprovar matérias antes das eleições. Lula busca aproveitar a janela legislativa para destravar projetos com forte apelo popular, enquanto Alcolumbre e Arthur Lira visam administrar a pauta do Congresso sem gerar desgaste com suas bases eleitorais e, crucialmente, preservar suas influências para a próxima legislatura. Ambos nutrem a ambição de permanecerem nas presidências das respectivas Casas em 2027.
Pautas sensíveis e articulações para 2027
Entre os temas em pauta estão o fim da escala de trabalho 6×1, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e a política de minerais críticos, além da medida provisória que suspende a cobrança de impostos sobre compras internacionais de baixo valor, conhecida como “taxa das blusinhas”. Embora o encontro de 12 de agosto tenha gerado avanços, as três primeiras propostas ainda não têm data definida para votação. A questão da escala 6×1, transformada em bandeira de campanha pelo governo, enfrenta resistências significativas, com Lula buscando acelerar sua tramitação e Alcolumbre tentando equilibrar a reaproximação com o PT com as reações de setores conservadores, do Centrão e do empresariado.
Arthur Lira já declarou publicamente seu apoio à reeleição de Lula, apesar da posição de neutralidade de seu partido. Em sua base eleitoral na Paraíba, essa aliança fortalece sua própria campanha e o plano de lançar seu pai, Nabor Wanderley, ao Senado. Alcolumbre, por sua vez, sinalizou a aliados que “fará o L”, indicando seu alinhamento com o atual presidente. A disputa pelo comando do Senado em 2027 se apresenta como um fator determinante para esses movimentos. A direita, com Flávio Bolsonaro integrando a eleição para o Senado à disputa presidencial, aposta em uma virada conservadora na Casa para alterar a correlação de forças em 2027. Essa perspectiva explica parte da urgência de Alcolumbre em garantir o apoio governista desde já para sua reeleição como presidente do Senado, uma vez que uma bancada do PL ampliada poderia sustentar uma candidatura adversária forte.
O sucesso de Lula na eleição interessa aos três líderes políticos: o presidente manteria o Planalto e contaria com aliados nos comandos do Legislativo; Lira asseguraria acesso privilegiado ao governo; e Alcolumbre teria o apoio do PT e de partidos de esquerda para enfrentar a direita liderada pelos Bolsonaro. Essa articulação ocorre em meio a desgastes provocados por revelações da Polícia Federal em investigações sobre escândalos como o do Banco Master e fraudes no INSS, evidenciando um cerco sobre os centros de poder.
A busca por governabilidade, o sucesso eleitoral em uma disputa acirrada e a sobrevivência política se entrelaçam nesse “acordão” que, embora não formalizado em documento, estabelece uma dependência mútua entre Lula, Alcolumbre e Lira para o alcance de seus objetivos.
