A medicina moderna, em sua consolidação, perseguiu e apagou o saber de mulheres que atuavam como curandeiras e parteiras, relegando práticas ancestrais a um passado de “bruxaria” e desconsiderando sua importância empírica. Essa história é resgatada no livro “Bruxas, Parteiras e Enfermeiras: uma História de Mulheres que Curam”, das pesquisadoras Barbara Ehrenreich e Deirdre English. A obra, lançada no Brasil pela Editora Elefante, detalha como o conhecimento feminino foi marginalizado com a ascensão da medicina institucionalizada e científica, predominantemente masculina.
Publicado originalmente em 1973 e com uma nova edição em inglês em 2010, o livro nasceu de reflexões sobre estudos femininos na Universidade Estadual de Nova York. Deirdre English, em entrevista recente, relembrou que muitas alunas negras, com raízes no sul dos Estados Unidos e no Caribe, compartilhavam memórias de ancestrais que eram parteiras ou utilizavam ervas medicinais para tratamentos. “Essas mulheres tinham muito conhecimento potencial, mas foram apagadas”, afirmou English, que lamentou a morte de sua coautora, Barbara Ehrenreich, em 2022. Ehrenreich era doutora em biologia celular, e ambas defendiam a união do conhecimento tradicional com a ciência rigorosa.
A perseguição ao saber feminino
Antes do estabelecimento da medicina científica, mulheres, muitas delas de classes baixas, acumulavam saberes sobre partos, ervas medicinais e cuidados comunitários. Enquanto isso, médicos homens da elite acadêmica frequentemente praticavam procedimentos sem base científica comprovada, como sangrias e a teoria dos quatro humores. O livro argumenta que o interesse em “bruxaria” muitas vezes se concentrou em aspectos supersticiosos, obscurecendo a medicina alternativa e o conhecimento empírico passado por gerações. A ascensão do cristianismo e a recusa das classes altas em reconhecer o saber de mulheres de extrato social inferior contribuíram para essa supressão.
A perseguição a essas mulheres, que por vezes resultou em mortes violentas, levou à extinção de conhecimentos curativos tradicionais. As autoras defendem que o desenvolvimento da medicina teria sido mais completo se essas práticas tivessem sido apoiadas e integradas à pesquisa científica. A obra também destaca o papel crucial das parteiras, cujos partos eram frequentemente mais seguros do que os realizados por médicos que negligenciavam a higiene básica, como evidenciado pelo trabalho de Ignaz Semmelweis no século 19.
O legado das parteiras e a exclusão histórica
As parteiras eram figuras de autoridade em suas comunidades, promovendo a troca de conhecimento e demonstrando independência e força feminina. A supressão desse papel pela classe médica é vista como um reflexo da exclusão histórica das mulheres da produção científica na área da saúde. English expressou preocupação com o cenário atual, considerando-o um retrocesso em relação aos avanços científicos e de saúde observados anteriormente. Ela critica a “reação conservadora na ciência e na saúde” e a retirada de direitos femininos, lamentando o otimismo excessivo em relação ao progresso.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Editora Elefante e pela Folha de S.Paulo.
