Inteligência artificial promete prever complicações após cirurgia de tireoide
Inteligência artificial promete prever complicações após cirurgia de tireoide

Inteligência artificial promete prever complicações após cirurgia de tireoide

Nova tecnologia busca reduzir incertezas no pós-operatório da tireoidectomia total Uma ferramenta inovadora de inteligência artificial (IA) desenvolvida por pesquisadores do A.C.Camargo Cancer Center tem o potencial de revolucionar o acompanhamento de pacientes submetidos à cirurgia de retirada total da tireoide. O sistema é capaz de identificar com alta precisão aqueles com maior risco de […]

Resumo

Nova tecnologia busca reduzir incertezas no pós-operatório da tireoidectomia total

Uma ferramenta inovadora de inteligência artificial (IA) desenvolvida por pesquisadores do A.C.Camargo Cancer Center tem o potencial de revolucionar o acompanhamento de pacientes submetidos à cirurgia de retirada total da tireoide. O sistema é capaz de identificar com alta precisão aqueles com maior risco de desenvolver hipocalcemia transitória, uma queda nos níveis de cálcio no sangue que pode ocorrer após o procedimento. A tecnologia, baseada em dados de mais de 7.000 pacientes, visa auxiliar médicos a decidir de forma mais assertiva quem necessita de suplementação de cálcio preventiva e quem pode ser poupado de tratamentos desnecessários.

A hipocalcemia é uma das complicações mais comuns da tireoidectomia total, afetando entre 15% e 40% dos pacientes. Essa condição não está diretamente ligada à remoção da tireoide, mas sim à manipulação das glândulas paratireoides durante a cirurgia. Essas pequenas glândulas são responsáveis pela produção do hormônio paratormônio (PTH), que regula os níveis de cálcio no organismo. Quando sua função é temporariamente comprometida, a produção de PTH diminui, levando à queda do cálcio sérico.

Embora na maioria dos casos a hipocalcemia seja passageira, seus sintomas podem variar de cãibras e formigamentos a náuseas, vômitos e, em situações mais graves, alterações cardíacas. “É uma condição potencialmente grave, que piora muito a experiência do paciente, aumenta o tempo de internação, a necessidade de medicamentos e os custos do tratamento”, explica o médico oncologista Genival Barbosa Carvalho, cirurgião de cabeça e pescoço do A.C.Camargo e um dos autores do estudo. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo A.C.Camargo Cancer Center.

O Desafio da Prevenção e a Solução da IA

Atualmente, a medição do PTH no pós-operatório é um dos principais métodos para avaliar o risco de hipocalcemia. Contudo, a incerteza surge quando o hormônio aparece em níveis reduzidos, mas o paciente não apresenta sintomas. Estima-se que cerca de 30% desses pacientes não desenvolvam a complicação, o que levaria a um tratamento preventivo desnecessário para muitos. Por outro lado, a falha em identificar quem realmente desenvolverá hipocalcemia pode resultar em idas ao pronto-socorro após a alta hospitalar.

Foi para solucionar essa lacuna diagnóstica que os pesquisadores do A.C.Camargo desenvolveram a ferramenta de IA. O modelo foi construído a partir da análise de informações de 7.066 pacientes operados entre 2014 e 2024. Diferente de abordagens tradicionais, a IA cruzou uma vasta gama de dados, incluindo características pessoais, detalhes da doença, informações cirúrgicas e resultados do pós-operatório, para calcular o risco individualizado.

“O PTH é um indicador importante, mas esse exame sozinho não captura toda a complexidade do risco. O diferencial do aprendizado de máquina é conseguir integrar essa informação a diversas outras variáveis e analisar as relações entre elas”, afirma Israel Tojal da Silva, cientista da computação e coordenador do Laboratório de Bioinformática do A.C.Camargo. A precisão do modelo aumentou significativamente à medida que mais informações sobre a jornada do paciente eram incorporadas, especialmente dados coletados no período pós-operatório.

Precisão e Transparência no Diagnóstico de Risco

Em uma fase de validação com 149 novos pacientes, a IA demonstrou alta capacidade de prever quais desenvolveriam hipocalcemia transitória. Além do PTH baixo, já conhecido como fator de risco, a ferramenta identificou outros elementos relevantes, como a realização de esvaziamento cervical bilateral (remoção de linfonodos no pescoço) e a duração da cirurgia. O horário do procedimento e a carga de trabalho do cirurgião também foram associados a um maior risco, embora os pesquisadores ressaltem que esses fatores podem indicar a complexidade do caso, e não serem causas diretas da hipocalcemia.

Um diferencial importante da tecnologia é o uso da inteligência artificial explicável. Isso significa que, além de prever o risco, a ferramenta detalha quais informações mais contribuíram para essa avaliação. “Existe a ideia de que a IA funciona como uma caixa-preta, porque nem sempre sabemos como ela chegou a determinado resultado. Nesse caso, nós conseguimos mostrar quais fatores mais pesaram naquela avaliação de risco do paciente”, explica Tojal.

Aplicações Clínicas e Próximos Passos

A plataforma web, já desenvolvida com base no modelo de IA, não visa substituir os exames ou a decisão médica, mas sim atuar como um suporte para casos de dúvida. A ferramenta é particularmente útil para o grupo de pacientes que apresenta exames alterados, mas sem sintomas, ajudando a definir quem realmente precisa de tratamento preventivo e quem pode ser acompanhado sem intervenção medicamentosa.

O sistema está em fase de testes no próprio A.C.Camargo e a intenção é expandir sua validação para outros hospitais. A expectativa é que, após a conclusão dessas etapas e o depósito do pedido de patente, a ferramenta seja disponibilizada gratuitamente para instituições interessadas. “Ao conseguirmos antecipar o risco de uma complicação, podemos planejar melhor o cuidado de cada paciente, direcionando as intervenções para quem realmente precisa. Isso pode melhorar a experiência do paciente e contribuir para uma recuperação mais segura e eficiente”, conclui Tojal. O estudo que embasa essa tecnologia foi publicado na revista Scientific Reports.

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