A precariedade da infraestrutura brasileira impõe um fardo financeiro de R$ 284 bilhões por ano e limita o potencial de crescimento econômico do país. Rodovias esburacadas, portos congestionados e tarifas de energia elevadas refletem o baixo investimento na área, impactando diretamente a produtividade empresarial e a capacidade de o Brasil competir no mercado global. A análise é da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e do Movimento Brasil Competitivo.
Esses custos adicionais, que operam quase como um imposto extra para as empresas, tornam a operação logística brasileira mais cara que a de outros países de dimensões continentais. Em setores como o de materiais de construção, o frete pode consumir até 14,3% do faturamento, enquanto em óleo e gás e higiene e limpeza, esses percentuais chegam a 13,3% e 9,9%, respectivamente. O problema fundamental reside no baixo aporte de capital físico estrutural, com o estoque de infraestrutura no Brasil estagnado entre 35% e 40% do Produto Interno Bruto (PIB) desde o início dos anos 2000, conforme aponta um estudo da Inter.B Consultoria.
Para modernizar o setor e atingir um patamar desejável de 63,7% do PIB em duas décadas, o país precisaria investir anualmente cerca de 4,65% do PIB. Contudo, as projeções para 2024 indicam investimentos de R$ 266,8 bilhões, representando apenas 2,27% do PIB, com a iniciativa privada respondendo por mais de 70% desse montante. Ademais, mais de 60% desses recursos são destinados à reposição de ativos depreciados, e não à expansão efetiva dos serviços. Para 2025, a expectativa é de uma queda relativa para 2,19% do PIB, com investimentos estimados em R$ 277,9 bilhões.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), Movimento Brasil Competitivo e Inter.B Consultoria.
Dependência rodoviária e gargalos portuários persistem
O setor de transportes é o que mais sofre com a necessidade de modernização. Em 2025, estima-se que mais da metade dos R$ 90 bilhões investidos em transportes sejam direcionados ao modal rodoviário, apesar da fragilidade da malha federal, com apenas uma pequena fração concedida à iniciativa privada. As condições precárias das vias aumentam o consumo de combustível, os custos de seguro e o desgaste da frota. O governo federal busca mitigar esse problema com leilões rodoviários, incluindo a recente concessão da Rodovia Fernão Dias.
A infraestrutura portuária tem visto avanços com o regime de Terminais de Uso Privado (TUPs), como a concessão do canal de acesso ao Porto de Paranaguá. No entanto, a intermodalidade ainda é prejudicada pelo baixo investimento em hidrovias, estimado em R$ 700 milhões no ano passado. No setor ferroviário, renovações antecipadas de contratos impulsionaram investimentos de R$ 17,9 bilhões em 2024, com projetos como a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (Fico 1) sendo capitaneados pelo capital privado. O programa Pró-Trilhos, com mais de 40 projetos aprovados, ainda enfrenta desafios de viabilidade financeira.
Matriz elétrica e saneamento: desafios e avanços
O setor elétrico, líder em atração de capital com cerca de R$ 113 bilhões previstos para 2025, enfrenta o desafio do encarecimento das tarifas devido à rápida expansão de fontes intermitentes. O fenômeno do curtailment, que em 2025 atingiu 20,6% da capacidade eólica e solar, gerou prejuízos de R$ 6,5 bilhões e expôs gargalos na transmissão.
No âmbito social e ambiental, o saneamento básico ganhou fôlego com o novo marco legal, facilitando privatizações como a da Sabesp. O próximo passo é o “saneamento ampliado”, que envolve a desativação de lixões e a construção de galerias pluviais para mitigar problemas como enchentes que paralisam a economia.
Brasil investe abaixo de concorrentes globais e insegurança jurídica afasta capital
A trajetória do Brasil em infraestrutura contrasta com países como Coreia do Sul e China, que investiram entre 7% e 9% de seus PIBs anualmente em infraestrutura durante seus períodos de expansão industrial. Para alcançar um nível similar de capital e reduzir o “Custo Brasil”, o país precisaria investir entre 4% e 6% do PIB por duas décadas seguidas.
A situação é agravada pela dívida pública federal, estimada em R$ 8,63 trilhões, e déficits em estatais, que limitam a capacidade do Estado de atuar como principal financiador. A insegurança jurídica é outro obstáculo significativo para a atração de capital privado. Especialistas apontam a necessidade de estabilidade contratual, ampliação de Parcerias Público-Privadas (PPPs), blindagem das agências reguladoras contra interferências políticas e a retomada do planejamento de longo prazo para destravar investimentos essenciais ao desenvolvimento do país.
