Um novo olhar sobre a conservação da Amazônia
Enquanto o debate sobre a preservação da Amazônia frequentemente se concentra no combate ao desmatamento, um estudo recente aponta que ações voltadas para conter a degradação florestal podem oferecer um retorno sobre o investimento ainda mais vantajoso. A pesquisa, publicada na conceituada revista científica Science, sugere que prevenir o empobrecimento da mata, causado por atividades como corte seletivo predatório e incêndios, pode ser tão ou mais eficaz do que simplesmente inibir o corte raso, especialmente quando se considera a preservação da biodiversidade e o estoque de carbono.
O estudo, que contou com a colaboração de pesquisadores brasileiros e estrangeiros, utilizou dados de satélite e entrevistas em propriedades rurais nas regiões de Santarém e Paragominas, no Pará. Os resultados compararam os benefícios e custos de três tipos de intervenção: desmatamento evitado, degradação prevenida e restauração florestal. De acordo com as projeções, a prevenção da degradação, quando combinada com a evitação do desmatamento, apresentou resultados superiores à restauração, que se mostrou a opção mais custosa e com menor benefício.
As informações foram reunidas a partir de um estudo publicado na revista Science.
Entendendo a degradação florestal
O conceito de degradação florestal, menos familiar ao público geral, refere-se ao processo de empobrecimento da floresta sem que ocorra o seu desaparecimento completo. Isso inclui práticas como a extração de madeira sem manejo adequado, a abertura de estradas clandestinas que fragmentam o ecossistema, e a ocorrência de incêndios, sejam eles intencionais ou acidentais, que atingem a vegetação rasteira e se alastram pela mata.
A pesquisa detalha que a evitação do desmatamento, por si só, é capaz de reduzir em 28% a perda de biodiversidade e em 60,8% as emissões de CO2. No entanto, a prevenção da degradação demonstra um impacto ainda maior na preservação da biodiversidade, com um índice de 68,5%, e uma redução de 46,8% nas emissões de carbono. A restauração de áreas degradadas, embora importante, apresentou ganhos percentuais menores em ambas as frentes: apenas 6,5% para biodiversidade e 14,7% para carbono.
Custo-benefício e políticas públicas
Um dos achados contraintuitivos do estudo é que a prevenção da degradação pode ser mais benéfica para a biodiversidade do que a evitação do desmatamento. Os autores sugerem que isso pode ocorrer em áreas já impactadas, onde a diversidade de espécies é menor. Nesses locais, ações que evitam o aprofundamento do dano podem ter um impacto proporcionalmente maior na manutenção das espécies remanescentes.
Ao considerar os custos de oportunidade para os proprietários rurais – como a renúncia à extração de madeira ou ao uso da terra para agricultura – e os investimentos necessários para prevenir incêndios e restaurar áreas, as vantagens de evitar tanto o corte raso quanto a degradação continuam a superar os benefícios da restauração. Leonardo Miranda, um dos autores do estudo, ressalta a eficácia de planos como o PPCDAm (Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal), que demonstraram sucesso na redução do desmatamento quando implementados e enfraquecidos com mudanças de governo.
Miranda defende um esforço semelhante para combater as queimadas, apontando a Política de Manejo Integrado do Fogo como um avanço. Ele enfatiza a necessidade de transformar essa política em uma capacidade permanente de prevenção, monitoramento e resposta rápida, fortalecendo brigadas, oferecendo assistência técnica e implementando ações que impeçam que pequenos focos de incêndio se tornem grandes catástrofes ambientais.
