A Revolução Verde do Cerrado e Além
Há cinco décadas, o Brasil era um país importador de alimentos. Hoje, figura entre as maiores potências agropecuárias do mundo. Essa ascensão meteórica não foi fruto do acaso, mas sim de um projeto consistente de investimento em ciência, formação de pesquisadores e políticas públicas. A criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em 1973, foi um divisor de águas, impulsionando o desenvolvimento de tecnologias adaptadas à agricultura tropical, superando a dependência de modelos estrangeiros. Ao lado de universidades e produtores, a Embrapa foi fundamental para a expansão agrícola no cerrado, a adaptação de culturas a novas regiões, a melhoria da gestão de solos e a criação de sistemas produtivos inovadores, como o plantio direto e a integração lavoura-pecuária-floresta.
A capacidade de inovar permitiu ao Brasil alcançar a liderança em diversas áreas, como exemplificado pela fixação biológica do nitrogênio na soja. Décadas de pesquisa com microrganismos tornaram a adubação nitrogenada mineral dispensável para essa cultura, gerando uma economia estimada em US$ 29 bilhões na última safra e evitando a emissão de gases de efeito estufa equivalente à frota de 60 milhões de automóveis anualmente. Esses números demonstram a conversão direta de ciência em competitividade, autonomia e sustentabilidade para o agronegócio nacional.
O Retorno Concreto da Pesquisa e os Desafios do Futuro
Os resultados do investimento em pesquisa são tangíveis. Um balanço social da Embrapa referente a 2025 apontou um lucro social de R$ 124,76 bilhões, com um retorno de R$ 27 para cada R$ 1 investido. Esses dados reforçam que a pesquisa não deve ser vista como despesa, mas sim como um motor de geração de riqueza e de capacidade para enfrentar os desafios que se apresentam. No entanto, o setor não pode se acomodar com as conquistas passadas.
As mudanças climáticas, a desertificação, a salinização dos solos, o surgimento de novas pragas e doenças, além da crescente demanda por produção com menor uso de água, insumos e terra, exigem soluções contínuas. Tecnologias de ponta como inteligência artificial e edição gênica oferecem novas fronteiras, mas a falta de domínio nacional sobre elas pode acentuar a dependência externa. A ciência agropecuária tem um papel crucial em reduzir perdas, orientar políticas públicas, aprimorar a qualidade nutricional dos alimentos e ampliar seu acesso, o que demanda investimento e integração entre diversas áreas do conhecimento.
A Necessidade de Continuidade e Previsibilidade no Financiamento
Para que a pesquisa agropecuária continue a gerar resultados, é fundamental que o investimento em ciência tenha continuidade e previsibilidade. Cortes orçamentários interrompem pesquisas em andamento, desarticulam equipes qualificadas e comprometem competências que são difíceis de reconstruir. Transformar o fortalecimento da pesquisa pública em uma política de Estado, com recursos garantidos e visão de longo prazo, é essencial. O agronegócio, beneficiário direto desses avanços, tem um papel a desempenhar, defendendo e participando do investimento em pesquisa pública, como já ocorre em outros países. A soberania nacional e a competitividade futura do setor dependem diretamente dessa colaboração.
O Brasil colheu e continua colhendo os frutos de decisões de investimento em ciência tomadas décadas atrás. O que o país será nas próximas décadas no cenário agropecuário mundial dependerá, invariavelmente, das decisões de investimento em pesquisa que forem tomadas a partir de agora. Sem financiamento contínuo e robusto para a ciência, o risco de perder competitividade, autonomia e a capacidade de garantir segurança alimentar e nutricional para todos é real.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Serrapilheira.
