O nascimento que se tornou o pior dia da vida
A expectativa de um parto, muitas vezes celebrada e idealizada, pode se transformar em um cenário de dor e desespero. Para a médica Cecília Emerick, a chegada de sua filha Stela, longe de ser um momento de alegria, marcou o “pior dia da sua vida”. A médica, que não enfrentou dificuldades em suas gestações, viu sua realidade desmoronar durante o parto de Stela, que nasceu com graves complicações decorrentes de uma rotura uterina, uma intercorrência rara, mas de desfechos potencialmente catastróficos.
Enquanto a sociedade celebra a gravidez como um evento seguro e espera um desfecho feliz, a realidade pode ser cruel. Dados das Nações Unidas apontam que uma mulher morre a cada dois minutos devido a complicações na gravidez ou no parto. A história de Cecília é um testemunho doloroso dessa estatística, evidenciando a falta de preparo e sensibilidade que muitas vezes acompanham o sofrimento de mães em momentos de crise obstétrica.
As informações foram reunidas a partir do relato da médica Cecília Emerick.
A rotura uterina e a luta pela vida
Com 39 semanas de gestação, o parto de Stela evoluiu rapidamente. Contudo, Cecília sofreu uma rotura uterina, que resultou na falta de oxigênio para o bebê e na perda de mais da metade do sangue da mãe. Cecília ficou desmaiada, enquanto a equipe médica tentava reanimar Stela. Ao recobrar a consciência, na sala de cirurgia, a visão da filha intubada foi o primeiro sinal de que algo trágico havia ocorrido.
A separação em UTIs distintas – Cecília na UTI adulta e Stela na neonatal – intensificou o sofrimento. A médica relata a falta de sensibilidade da equipe de saúde, que, mesmo diante de sua dor física e emocional, cobrava sua interação com a filha. “Eu dormia ouvindo os choros dos bebês saudáveis nos quartos ao redor”, desabafa Cecília, evidenciando a desumanização vivenciada em um dos momentos mais vulneráveis de sua vida.
A difícil decisão e o luto silenciado
Informações desencontradas sobre o estado de saúde de Stela adicionaram angústia à situação. Enquanto uma médica informava que a tomografia estava normal, um neurologista mais tarde descreveu o quadro como uma “catástrofe”, indicando que a criança dependeria de aparelhos para sobreviver. Como especialista em cuidados paliativos, Cecília compreendeu a extensão dos danos neurológicos e tomou a difícil decisão de optar pela extubação paliativa.
Stela viveu por 22 dias. A escolha de Cecília pela eutanásia foi amparada por seus valores pessoais e conhecimento técnico, com o objetivo de aliviar o sofrimento da filha. O momento da morte, com Stela em seu colo, cercada pela família, foi descrito por ela como o instante em que mais sentiu que pôde protegê-la. O luto subsequente foi avassalador, marcado pela sensação de solidão e pelo estranhamento de uma dor tão profunda que parecia nunca ter sido experimentada por outra pessoa.
A busca por humanização e um novo recomeço
Ao compartilhar sua história, Cecília descobriu que muitas outras mulheres vivenciaram experiências semelhantes, mas mantidas em silêncio. Essa constatação a impulsionou a lutar por mudanças. A Lei 15.139/2025, que instituiu a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, oferecendo acomodação em alas separadas para mães em situações como a dela, foi uma conquista, mas a luta por maior sensibilidade e preparo das equipes de saúde continua.
A maternidade, para Cecília, ganhou novos contornos. Após a perda de Stela, ela e o marido decidiram congelar embriões. Sua mãe, Márcia, aos 65 anos, gestou e deu à luz Lara, uma menina que nasceu sem intercorrências em 2022. A chegada de Lara e de seu outro filho, Olavo, trouxe um novo sentido à vida de Cecília, que faz questão de manter a memória de Stela viva.
Recentemente, Cecília fundou a Casa de Stela, uma empresa dedicada à capacitação de profissionais de saúde e à promoção de cuidados e conforto para pais que enfrentam dores semelhantes. “O pior dia da minha vida não foi quando meu bebê morreu. Ali eu pude ser mãe dela e aliviar seu sofrimento. O pior dia da minha vida foi quando ela nasceu sem que eu pudesse impedir a sua dor”, afirma Cecília, ressignificando sua relação com a vida e a morte, e dedicando-se a transformar a tragédia pessoal em um legado de humanização no cuidado materno e parental.