Pioneirismo no Brasil
Pisci Bruja, ativista de 37 anos, marcou um capítulo inédito na saúde pública brasileira ao se tornar a primeira pessoa no país a receber uma dose experimental de um tratamento antirretroviral injetável de ultralonga duração para o HIV. A aplicação, realizada em 22 de setembro, marca o fim de uma rotina de 13 anos de ingestão diária de comprimidos. A nova terapia, com aplicação prevista a cada quatro meses, visa oferecer maior conveniência e qualidade de vida para pessoas vivendo com o vírus.
“Foi muito simbólico ter sido o último comprimido para, no dia seguinte, começar o novo tratamento. Guardei a minha caixinha de remédio de recordação, mas pensei ‘que bom’. Tomar remédio todo dia é chato”, expressou Pisci, que é antropóloga e doutoranda em saúde pública na USP. A iniciativa faz parte de um estudo clínico global da farmacêutica GSK, que testa a eficácia e segurança do uso combinado de dois antirretrovirais injetáveis: cabotegravir e rilpivirina.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela farmacêutica GSK e entrevistas com os participantes e o principal investigador do estudo no Brasil.
Avanço em Direção à Longa Duração
O estudo compara o esquema de aplicação a cada quatro meses com o tratamento injetável a cada dois meses, modalidade já aprovada em países como Canadá, União Europeia, Austrália e Estados Unidos, mas ainda não disponível no Brasil. O objetivo principal da pesquisa é avaliar se a ampliação do intervalo entre as doses para seis meses é tão eficaz quanto o esquema bimestral.
O infectologista José Valdez Rodrigues, principal investigador do estudo no Brasil, destaca os benefícios da terapia de longa duração. “Se o indivíduo toma a injeção de dois em dois meses, ele vai ter que ir ao serviço de saúde seis vezes por ano. Se ele toma a injeção de quatro em quatro meses, ele só vai ter que ir três vezes por ano. Quanto maior o intervalo de aplicação, melhor para o paciente.” É importante ressaltar que este tratamento não é uma vacina contra o HIV, mas sim uma forma de controlar a multiplicação do vírus no organismo.
O Estudo e Seus Participantes
A pesquisa global prevê a participação de aproximadamente 564 indivíduos em diversos países, com a conclusão global estimada para setembro de 2029. No Brasil, o ensaio clínico conta com sete centros de pesquisa, que recrutarão entre 63 e 77 participantes. As vagas foram limitadas e os participantes foram selecionados com base em critérios clínicos específicos, sem inscrição aberta ao público.
Matheus Evedo, enfermeiro de 24 anos, faz parte do grupo de comparação, recebendo as injeções a cada dois meses. Ele vive com HIV há três anos e relata o estranhamento inicial com a ausência da medicação diária. “Estou estranhando muito não tomar medicação, porque eu já estava habituado”, disse Matheus, que expressou felicidade em participar da pesquisa: “Eu nem imaginava que estava acontecendo todo esse trâmite na ciência. Nunca pensei que estaria fazendo parte dessa genialidade. Estou muito feliz.”
Impacto e Expectativas Futuras
A busca por medicamentos de ação prolongada tem sido um tema central nos congressos internacionais de HIV, refletindo um esforço global para otimizar a terapêutica. Esses tratamentos de longa duração podem facilitar a vida de populações vulneráveis, como pessoas em situação de rua, privadas de liberdade ou que viajam com frequência, eliminando a necessidade de carregar e administrar comprimidos diariamente.
Atualmente, o SUS oferece tratamento antirretroviral predominantemente oral e diário, que, quando seguido corretamente, mantém a carga viral indetectável e impede a transmissão do vírus por via sexual (princípio I=I: indetectável = intransmissível). O Ministério da Saúde informou que, com as 30 opções terapêuticas diárias já aprovadas, 96% das pessoas atendidas pelo SUS apresentam supressão da carga viral e que, devido à situação de registro de medicamentos injetáveis no Brasil, não há discussão sobre a incorporação de novas opções terapêuticas no momento.
No entanto, o infectologista José Valdez Rodrigues defende que o Brasil já poderia aprovar o esquema injetável a cada dois meses, com base em dados de estudos anteriores e aprovações de agências reguladoras internacionais. O custo elevado destes tratamentos, como o de US$ 7.311,29 (R$ 36,5 mil) por dose nos Estados Unidos, é um fator relevante para a incorporação ao sistema público.
Para Pisci Bruja, a evolução dos medicamentos representa um avanço, mas a chegada de novas tecnologias ao Brasil poderia ter sido mais rápida. Ela defende que o acesso a tratamentos modernos seja acompanhado de políticas públicas e negociações para redução de custos. A ativista vê sua participação no estudo como uma forma de ampliar o debate sobre o direito a tratamentos que proporcionem maior qualidade de vida. Matheus compartilha dessa esperança, acreditando que sua experiência pode inspirar outras pessoas a vislumbrar um futuro com menos medo e mais possibilidades, reafirmando que o diagnóstico de HIV não é o fim da linha.
