A relação entre antidepressivos e a diminuição do desejo sexual é um efeito colateral comum, mas existem formas de gerenciar essa questão sem interromper o tratamento.
O uso de antidepressivos, ansiolíticos e outras drogas psicoativas, cada vez mais presente entre jovens e adultos, pode trazer consigo um efeito colateral indesejado: a redução da libido e outras disfunções sexuais. Estima-se que até 40% dos usuários de antidepressivos experimentem alguma forma de impacto em sua vida sexual, como perda de desejo, dificuldade de ereção, retardo ejaculatório, diminuição da lubrificação e anorgasmia (incapacidade de atingir o orgasmo). Essas questões surgem, em grande parte, devido à complexa interação dos medicamentos com neurotransmissores cerebrais, como a serotonina, dopamina e noradrenalina, além de possíveis efeitos periféricos e alterações hormonais.
A psiquiatra Carmita Abdo, da Associação Brasileira de Psiquiatria, ressalta que a resposta aos medicamentos varia individualmente e que outros fatores, como conflitos relacionais, estresse e doenças sistêmicas, também podem influenciar a vida sexual. No entanto, a interrupção abrupta do tratamento psiquiátrico não é recomendada, pois pode agravar quadros de depressão e ansiedade, tornando a falta de interesse sexual crônica. Para enfrentar esse desafio, especialistas indicam um conjunto de estratégias que visam amenizar os efeitos colaterais sem comprometer a saúde mental.
As informações foram reunidas a partir de entrevistas com os psiquiatras Luciano Vianelli, do Hospital Vera Cruz, e Carmita Abdo, da Associação Brasileira de Psiquiatria.
Ajustes no Tratamento e Investigação Abrangente
Uma das primeiras e mais importantes recomendações é não suspender o medicamento por conta própria. Em vez disso, o paciente deve conversar abertamente com seu psiquiatra. Ajustes na dosagem podem ser suficientes para mitigar os efeitos colaterais sexuais. Em alguns casos, uma redução na dose pode melhorar o desempenho sem prejudicar a eficácia do tratamento. O psiquiatra também pode considerar a troca para medicamentos com menor impacto na libido, como a vilazodona ou agomelatina, ou prescrever drogas que atuam como antídotos para os efeitos colaterais, como a bupropiona.
É fundamental investigar a causa raiz da diminuição da libido. Embora os psicofármacos sejam um fator provável, o problema pode estar interligado a outros aspectos da vida do paciente. Estresse no trabalho, uso concomitante de outros medicamentos e questões psicológicas mais profundas exigem uma avaliação detalhada. Se o psiquiatra identificar desequilíbrios hormonais, por exemplo, o encaminhamento para um endocrinologista pode ser necessário.
Hábitos Saudáveis e Terapia como Aliados
Manter um estilo de vida equilibrado é crucial. Uma rotina que inclua sono de qualidade, prática regular de atividade física e uma alimentação variada pode não apenas auxiliar na redução dos efeitos colaterais dos medicamentos, mas também melhorar a produção de testosterona e a performance sexual. A atividade física, em particular, combate a obesidade e contribui para o bem-estar geral, fatores que impactam positivamente a libido.
A terapia, seja individual ou de casal, desempenha um papel vital. O desinteresse sexual pode estar mascarando problemas conjugais não resolvidos ou dificuldades profissionais que afetam a autoestima e o humor. Um psicólogo pode auxiliar o paciente a identificar e trabalhar essas questões, desenvolvendo estratégias comportamentais para lidar com os desafios e melhorar a conexão com o parceiro.
Gerenciando o Impacto da Vida Digital
O tempo excessivo em telas e o consumo de pornografia têm sido apontados como fatores que contribuem para a perda de interesse sexual, especialmente entre os jovens. O uso intensivo de dispositivos eletrônicos e atividades online que proporcionam gratificação imediata e alta liberação de dopamina podem dessensibilizar o cérebro, diminuindo a busca por prazeres mais complexos e reais. A dependência de tela, inclusive, já é classificada como um transtorno mental.
A exposição frequente à pornografia pode criar um padrão de estímulo visual descolado da realidade, transferindo o interesse sexual para um cenário virtual. Com o tempo, isso pode levar à ansiedade e à angústia, dificultando a satisfação na intimidade física. Reduzir o tempo de tela e buscar um equilíbrio entre o mundo digital e a vida real é essencial para reavivar o desejo.
Foco na Conexão e no Prazer
Diante da redução da libido, a sugestão é priorizar a conexão e a intimidade em detrimento da performance sexual. Beijos, carícias e preliminares prolongadas podem ajudar a construir a excitação gradualmente e diminuir a ansiedade associada ao medo de falhas, como a anorgasmia ou a disfunção erétil. Ao focar na troca afetiva e no prazer mútuo, o casal pode reencontrar o caminho para uma vida sexual satisfatória, mesmo durante o tratamento medicamentoso.
