Anos de incerteza: a luta de pacientes com doenças raras por um diagnóstico
Anos de incerteza: a luta de pacientes com doenças raras por um diagnóstico

Anos de incerteza: a luta de pacientes com doenças raras por um diagnóstico

A longa espera por respostas Matheus Ribeiro, de 30 anos, reside no Recife e há oito anos busca entender as dores articulares, fraquezas musculares e dificuldades para engolir que alteraram drasticamente sua vida. Antes um estudante de tecnologia da informação e músico com rotina independente, Matheus viu seus sintomas evoluírem, culminando em rouquidão, perda de […]

Resumo

A longa espera por respostas

Matheus Ribeiro, de 30 anos, reside no Recife e há oito anos busca entender as dores articulares, fraquezas musculares e dificuldades para engolir que alteraram drasticamente sua vida. Antes um estudante de tecnologia da informação e músico com rotina independente, Matheus viu seus sintomas evoluírem, culminando em rouquidão, perda de força e incapacidade de deglutir alimentos sólidos, pastosos e até líquidos. Mesmo após passagens por quatro hospitais de referência, internação prolongada e diversos exames, um diagnóstico definitivo permanece inalcançável. Médicos investigam causas genéticas ou neurológicas, mas a origem de seu quadro clínico ainda é um mistério.

A experiência de Matheus reflete a realidade de inúmeros pacientes que suspeitam de doenças raras. A busca por um diagnóstico pode se estender por anos, envolvendo consultas com múltiplos especialistas, encaminhamentos equivocados, resultados de exames inconclusivos e uma espera angustiante até que se chegue a um serviço especializado. Alexandre Kawasaki, cofundador da Raras Health, plataforma que conecta pacientes com doenças raras, estima que cerca de 13 milhões de brasileiros vivam com alguma condição desse tipo.

A confeiteira Paulete Marques de Lima Junqueira, 50, de Valinhos (SP), enfrenta uma saga semelhante. Desde 2019, dores intensas no rosto a levaram a um diagnóstico inicial de neuralgia do trigêmeo. No ano seguinte, espasmos em diversas partes do corpo, quedas e dificuldades para mastigar e respirar se instalaram. Em sua jornada inicial na Bahia, profissionais chegaram a questionar a veracidade de seus movimentos e a encaminharam à psiquiatria, em um ciclo de encaminhamentos que a própria Paulete descreve como frustrante e descredibilizador.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela fonte principal.

Desafios no acesso e a escassez de especialistas

A distribuição geográfica dos serviços especializados em doenças raras no Brasil é desigual, com a maioria concentrada nas regiões Sul e Sudeste. Moradores do Norte, Nordeste e Centro-Oeste enfrentam barreiras de distância e menor disponibilidade de profissionais. A carência de geneticistas é outro gargalo significativo; em alguns estados, poucos especialistas atendem toda a população, exigindo viagens e afastamento do trabalho para quem vive longe dos grandes centros.

João Bosco Oliveira, coordenador do Genomas Raros, o maior projeto de genômica para doenças raras do país, aponta que o Brasil conta com cerca de 50 serviços de atenção especializada e centros de referência. Embora esse número tenha crescido, ainda é insuficiente para a dimensão territorial e o número de municípios brasileiros. O acesso a esses serviços também depende das políticas estaduais de cadastro e organização, e mesmo nos centros de referência, os exames disponíveis nem sempre cobrem todas as necessidades clínicas.

Exames genéticos: um caminho com barreiras

Cerca de 80% das doenças raras têm origem genética, mas o acesso a exames capazes de analisar múltiplos genes ainda é limitado no Sistema Único de Saúde (SUS). O sequenciamento do exoma, que foca nas regiões codificadoras de proteínas, é ofertado apenas em situações específicas. Já o sequenciamento do genoma, que abrange um espectro mais amplo do material genético, ainda não foi amplamente incorporado ao sistema público.

O projeto Genomas Raros demonstrou o potencial da tecnologia, inclusive diagnosticando 39% de crianças com doenças não identificadas em unidades neonatais públicas em uma média de 13 dias. A expansão desses testes, no entanto, demanda formação de profissionais para interpretar resultados e oferecer aconselhamento genético. A baixa representatividade de grupos como indígenas em bancos genômicos pode dificultar a interpretação de variantes genéticas, gerando incertezas diagnósticas.

Tecnologia e atenção primária como aliados

Especialistas defendem o aprimoramento da atenção primária para identificar precocemente sinais de doenças raras, utilizando ferramentas digitais que cruzem sintomas e históricos para sugerir encaminhamentos. Teleconsultorias e canais de comunicação entre a atenção básica e os centros de referência também são vistos como essenciais para otimizar o fluxo de pacientes e evitar deslocamentos desnecessários.

A ampliação do acesso a exames genéticos e o fortalecimento da atenção básica devem caminhar juntos. Modelos como o do sistema britânico, que distribui centros de genética regionalmente e centraliza o sequenciamento, podem servir de inspiração. A busca por um diagnóstico preciso para doenças raras continua sendo um desafio multifacetado, exigindo investimentos em infraestrutura, capacitação profissional e acesso equitativo à tecnologia diagnóstica para devolver qualidade de vida e esperança a milhares de brasileiros.

Tags:

Veja Também

Governo Lula mira cargos do Centrão que apoiaram Bolsonaro

Governo Lula mira cargos do Centrão que apoiaram Bolsonaro

Copiloto da Flydubai Planejou Ataque ao Estilo 11 de Setembro Contra Israel, Diz Procurador

Rússia descarta peste em contatos de funcionária morta por pneumonia

Pacientes com dengue em UTIs do SUS chegam em estado mais grave que na rede privada, aponta estudo

Pacientes com dengue em UTIs do SUS chegam em estado mais grave que na rede privada, aponta estudo

Ovo no Dia Mundial do Alimento: Exagerar na proteína pode ser prejudicial?

Ovo no Dia Mundial do Alimento: Exagerar na proteína pode ser prejudicial?