Redes de amizade e vizinhança assumem papel crucial no suporte a idosos, segundo estudos recentes nos Estados Unidos.
Em um cenário demográfico em transformação, onde famílias tradicionais se tornam menos comuns e a expectativa de vida aumenta, amigos e vizinhos emergem como um pilar fundamental no cuidado de pessoas idosas. Pesquisas americanas indicam que essas redes informais de apoio não apenas complementam a assistência familiar, mas também preenchem lacunas importantes no dia a dia de muitos idosos, oferecendo ajuda em tarefas práticas e companhia essencial. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Jama Network Open, AARP e National Alliance for Caregiving.
A socióloga Deborah Carr, da Universidade de Boston, aponta que o aumento no número de idosos que nunca se casaram, são divorciados ou não têm filhos, somado à tendência de famílias menores, intensifica a necessidade de outras formas de cuidado. A distância geográfica e os rompimentos familiares também contribuem para que amigos e vizinhos assumam um papel cada vez mais relevante.
Amigos como cuidadores: um estudo revela a extensão do apoio informal
Um estudo publicado no Jama Network Open, conduzido por pesquisadores da Universidade de Michigan, analisou dados de mais de 2.600 idosos com limitações de saúde nos Estados Unidos. Os resultados indicam que, embora os familiares sejam os principais cuidadores, cerca de 14% dos participantes relataram receber ajuda de amigos, incluindo vizinhos. Essa parcela representa uma estimativa de 2,4 milhões de amigos cuidadores em todo o país. Uma pesquisa anterior da AARP e da National Alliance for Caregiving já havia apontado que 11% dos cuidadores prestam assistência a pessoas sem laços de parentesco.
Karen Fingerman, gerontóloga da Universidade do Texas em Austin, destaca que o papel desses amigos cuidadores tem sido subestimado. Eles frequentemente atuam em funções complementares, oferecendo suporte em atividades que os familiares, por diversos motivos, não conseguem cobrir integralmente.
Diferenças no cuidado: amigos focam em transporte e tarefas práticas
A pesquisa aponta que o modo como amigos prestam cuidado difere do de familiares. Geralmente, amigos não moram com o idoso e raramente são os únicos responsáveis por sua assistência. Em média, amigos dedicam cerca de 18 horas mensais ao cuidado, em comparação com aproximadamente 67 horas dedicadas por familiares. As tarefas mais comuns oferecidas por amigos incluem transporte – com dois terços dos amigos cuidadores levando seus amigos de carro –, compras, auxílio para sair de casa, preparo de refeições e acompanhamento a consultas médicas.
No entanto, há limites para o tipo de assistência que amigos se sentem confortáveis em oferecer. Cuidados pessoais, como banho e auxílio para se vestir, permanecem em grande parte sob responsabilidade familiar. Essa distinção é importante, pois tarefas íntimas com amigos podem gerar constrangimento e afetar a autoestima do idoso, ao contrário do que ocorre com parentes, onde há uma expectativa mais natural de intimidade em situações de fragilidade.
Redes de apoio e os desafios da longevidade
Os estudos também revelam que idosos que recebem ajuda de amigos tendem a ser mais jovens, possuir maior nível de escolaridade e ter redes sociais mais amplas. Surpreendentemente, eles também são menos propensos a serem casados e mais propensos a morar sozinhos, características que reforçam a importância de um círculo de amizades ativo.
Apesar das vantagens, como a empatia e a compreensão mútua entre pessoas da mesma geração, a ajuda de amigos também apresenta desafios. A instabilidade inerente a essas relações, como mudanças de vizinhos ou tensões que podem surgir com o tempo, pode impactar o bem-estar do idoso. Além disso, as políticas públicas atuais oferecem pouco suporte para o cuidado prestado por amigos, que não são legalmente equiparados aos familiares em termos de licenças e proteções trabalhistas para cuidadores.
A dinâmica de cuidado entre amigos e vizinhos reflete uma mudança social profunda, onde a definição de família se expande para incluir aqueles que compartilham o cotidiano e oferecem suporte mútuo em momentos de vulnerabilidade. Enquanto as estruturas familiares se adaptam, o papel das redes de apoio informais se consolida como um componente vital para o envelhecimento saudável e digno.
