A trajetória da Havan, de uma pequena loja de tecidos a um império do varejo, é marcada por um embate constante contra o que Luciano Hang descreve como um “aparelho estatal hostil ao empreendedorismo” e uma elevada carga tributária. Em 2026, a empresa, fundada há 40 anos em Brusque (SC), prevê o recolhimento de aproximadamente R$ 6 bilhões em tributos, valor que supera seu lucro líquido projetado para o ano.
A rede varejista, que hoje conta com quase 200 unidades, 22 mil colaboradores e projeção de faturamento de R$ 22 bilhões, nasceu em 1986 em um modesto espaço de 45 metros quadrados. A jornada de Luciano Hang, diagnosticado tardiamente com dislexia e filho de operários da indústria têxtil, é um retrato do empreendedorismo catarinense. Após experiências no setor têxtil, Hang fundou a Havan com Vanderlei de Limas, nome que resultou da junção dos sobrenomes. Cinco anos depois, Hang assumiu o controle total da empresa, que em 1995 abriu sua primeira filial em Curitiba e adotou a icônica fachada branca inspirada na Casa Branca.
Atualmente, a Havan possui 196 unidades em 23 estados, com a meta de atingir 200 megalojas até o final de 2026, presente em todos os 27 estados brasileiros e empregando cerca de 25 mil pessoas. “A Havan carrega o DNA catarinense em cada loja espalhada pelo Brasil. Estamos em quase todos os estados brasileiros, mas nunca deixamos a nossa essência catarinense”, afirma o empresário.
Burocracia: Um Obstáculo Crônico
Luciano Hang aponta a burocracia como um dos maiores entraves ao desenvolvimento do setor produtivo no país, um desafio que acompanha a Havan desde sua fundação. Ele relata casos como uma unidade que levou 22 anos para obter todas as licenças necessárias e um terreno de 30 mil metros quadrados em Matinhos (PR) parado há quatro anos, aguardando licenciamento. O empresário atribui esses impasses a órgãos como o Instituto Água e Terra (IAT) e a promotores públicos, que, segundo ele, “lamentavelmente não deixam o Brasil crescer”. Em Joinville (SC), três projetos foram inviabilizados, e em Natal (RN), a inauguração de uma unidade foi embargada na véspera da abertura, o que Hang classificou como perseguição política.
“Nosso problema maior não é comprar o terreno, não é fazer loja, é o licenciamento em algumas cidades. A burocracia é uma coisa que nos cansa”, declarou Hang. A capital paulista, apesar de ser o maior mercado consumidor do país, ainda não conta com nenhuma loja Havan, ausência que o empresário atribui à burocracia municipal. No estado de São Paulo, a rede possui 36 unidades, todas fora da capital.
Carga Tributária Elevada e Competição Desigual
A Havan recolheu R$ 4 bilhões em tributos em 2024 e projeta R$ 5 bilhões para 2025. Para 2026, a estimativa é de R$ 6 bilhões, um valor que excede o lucro líquido esperado. Hang afirma que a rede destina cerca de 30% do faturamento para impostos, superando gastos com lucro e fornecedores. A reforma tributária, em fase adaptativa, prevê um IVA (Imposto sobre Bens e Serviços) com alíquotas entre 26,5% e 28%, consideradas altas em comparação com a média da OCDE e da União Europeia. Para o varejo de departamentos, com margens líquidas de 9% a 10%, cada ponto percentual de imposto é significativo.
A recente decisão do governo Lula de zerar o Imposto de Importação para compras internacionais de até US$ 50 feitas por pessoas físicas em plataformas estrangeiras gerou forte reação de Hang. Ele argumenta que a carga tributária sobre operações nacionais pode chegar a 120%, criando uma disputa desigual com produtos importados de baixo custo. “Se o imposto é zero para o estrangeiro, queremos imposto zero para o brasileiro também”, questionou.
Expansão em Cenário de Crise no Varejo
Enquanto o varejo brasileiro enfrenta um recorde de pedidos de recuperação judicial, com redes como Casas Bahia e Marisa fechando lojas, a Havan segue em trajetória de expansão. A rede planeja a abertura de 15 novas unidades em 2026, com um investimento de R$ 1,2 bilhão. Um relatório do Banco Safra aponta que a Havan mantém margens acima da média do setor, atribuídas ao mix de produtos e ao modelo de megaloja.
Apesar dos desafios, Luciano Hang mantém o otimismo quanto ao potencial de empreender no Brasil. A próxima meta é alcançar 300 unidades, com foco em cidades médias e regionais, e já possui cerca de 20 terrenos adquiridos para novas expansões. As regiões Nordeste e Norte, historicamente menos representadas, são consideradas prioritárias. A empresa descarta expansão internacional, mesmo diante de propostas. A sucessão familiar, com dois dos três filhos já atuando na operação, é um tema que Hang discute pouco publicamente, enquanto continua dedicado a expandir a rede pelo país.
