A ciência brasileira sob ataque: um retrospecto do bolsonarismo
A relação entre o governo de Jair Bolsonaro e a comunidade científica brasileira foi marcada por atritos e desvalorização de instituições e pesquisas. Ao longo de seu mandato, diversos episódios evidenciaram uma postura crítica e, por vezes, hostil por parte do então presidente e seus aliados em relação ao desenvolvimento científico do país. Esses momentos, que agora são relembrados, pintam um quadro de desmonte e desmonte de um setor crucial para o desenvolvimento nacional.
As informações foram reunidas a partir de declarações e eventos noticiados durante o período.
Desinformação sobre a pesquisa universitária
Um dos primeiros sinais de desvalorização veio em abril de 2019, quando o próprio Jair Bolsonaro afirmou que a pesquisa nas universidades públicas era escassa e que a maior parte dela estaria concentrada na iniciativa privada. A declaração ia de encontro à realidade, onde mais de 90% da produção científica brasileira se concentra em instituições públicas. A Universidade Presbiteriana Mackenzie, citada pelo então presidente, ocupava à época a 74ª posição no ranking nacional de pesquisa.
Ataques ao Inpe e a demissão de Ricardo Galvão
Em julho de 2019, em meio ao aumento do desmatamento na Amazônia, o então presidente Bolsonaro direcionou sua atenção ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O órgão, conhecido por seu trabalho de excelência no monitoramento ambiental, vinha registrando o avanço da destruição da floresta. Bolsonaro acusou o físico Ricardo Galvão, presidente do Inpe na época, de estar a serviço de ONGs. Galvão, em resposta, defendeu a integridade do trabalho do instituto. No entanto, o então ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, alinhou-se ao presidente, exonerando Galvão. Apesar da pressão, os dados do Inpe eram tecnicamente robustos e continuaram a ser referência, mesmo que o governo optasse por mudar de assunto.
Promessas de curas milagrosas durante a pandemia
Durante os momentos mais críticos da pandemia de Covid-19, em 2020, o ex-astronauta e ministro Marcos Pontes voltou a ser destaque por declarações controversas. Pontes anunciou resultados promissores in vitro de testes com a nitazoxanida, um vermífugo, no combate ao coronavírus. Embora houvesse um certo estardalhaço midiático em torno da descoberta, envolvendo pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (Cnpem), a iniciativa não se concretizou em tratamentos eficazes, resultando em mais uma promessa vazia em um período de grande fragilidade sanitária.
Assédio judicial a pesquisadores
Em março de 2021, a Controladoria-Geral da União (CGU) foi acionada para investigar dois professores da Universidade Federal de Pelotas (RS), Pedro Hallal e Eraldo dos Santos Pinheiro. A razão alegada foi uma “manifestação desrespeitosa e de desapreço direcionada ao Presidente da República”, em referência a críticas dos professores à condução da pandemia pelo governo. O episódio foi visto por muitos como um claro exemplo de assédio judicial e intimidação a pesquisadores que ousavam discordar da narrativa oficial.
Esses episódios, entre outros, reforçam a percepção de um período em que a ciência brasileira enfrentou desafios significativos, com questionamentos à sua autonomia, cortes de verbas e tentativas de silenciamento de pesquisadores.
