Entenda o que é a 'psicose política', termo popularizado nas redes após o primeiro turno das eleições
Entenda o que é a ‘psicose política’, termo popularizado nas redes após o primeiro turno das eleições

Entenda o que é a ‘psicose política’, termo popularizado nas redes após o primeiro turno das eleições

O termo ‘psicose política’ ganhou força nas redes sociais entre eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após o primeiro turno das eleições, quando Flávio Bolsonaro obteve uma vantagem numérica inesperada. A expressão, no entanto, não é um diagnóstico clínico e é vista por especialistas como uma forma popular de descrever sentimentos intensos de […]

Resumo

O termo ‘psicose política’ ganhou força nas redes sociais entre eleitores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva após o primeiro turno das eleições, quando Flávio Bolsonaro obteve uma vantagem numérica inesperada. A expressão, no entanto, não é um diagnóstico clínico e é vista por especialistas como uma forma popular de descrever sentimentos intensos de desespero e indignação diante do cenário político.

A onda de reações nas redes sociais após a divulgação dos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais, que mostraram Flávio Bolsonaro à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, gerou uma série de discussões sobre o estado emocional de eleitores. Foi nesse contexto que a expressão ‘psicose política’ começou a circular, especialmente entre apoiadores do petista, que esperavam um desempenho superior do atual mandatário. No entanto, profissionais da área de saúde mental alertam para a imprecisão do uso do termo.

O psicanalista Christian Dunker, professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), considera a classificação como ‘psicose política’ imprecisa. Segundo ele, é semelhante a usar o termo ‘neurose’ para descrever alguém que está simplesmente irritado ou contrariado. Dunker aponta que essa apropriação popular de diagnósticos clínicos reflete uma tendência contemporânea de valorização da saúde mental, mas que, nesse caso, acaba por desvirtuar o significado dos termos técnicos. A psicóloga Késia Rodrigues complementa, afirmando que a psicose, em termos clínicos, envolve um distanciamento da realidade comum. O que se observa, na verdade, é uma ‘imersão total nessa realidade’, e não um afastamento dela.

Polarização e a criação de ‘realidades paralelas’

Apesar de não ser um diagnóstico clínico, Késia Rodrigues relata observar, tanto em sua prática clínica quanto no ambiente online, pessoas que vivenciam o cenário político como uma distopia iminente. Ela descreve a formação de duas dimensões de realidade, onde o diálogo se torna cada vez mais difícil entre aqueles imbuídos de visões de mundo conservadoras e progressistas. Essa fragmentação, segundo a psicóloga, impede a comunicação e a construção de consensos.

Christian Dunker relembra que fenômenos semelhantes foram observados na eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Ele identifica processos psicológicos como regressão, dissonância cognitiva, negação e projeção como elementos comuns na psicologia das massas em momentos de crise política e social. Esses momentos, segundo ele, tendem a convocar discursos de caráter mais metafísico ou religioso.

Sentimentos negativos em relação à política não são novidade. Um levantamento do Ipsos-Ipec de dezembro de 2025 indicou que tristeza (19%), cansaço (17%) e medo (16%) eram os sentimentos predominantes dos brasileiros em relação ao cenário político. Naquela ocasião, a tristeza era mais expressiva entre eleitores de Bolsonaro. O resultado do primeiro turno de 2022, no entanto, pareceu inverter essa percepção, com a esquerda lamentando o desempenho e bolsonaristas celebrando o aumento de representantes eleitos.

Do desespero à euforia: a mobilização pós-primeiro turno

Embora a tristeza e o luto por uma perda eleitoral sejam naturais, Dunker aponta o cansaço como um sinal mais preocupante. Ele o descreve como um indicativo de que a situação se cronifica, tornando o ambiente político tóxico e afastando as pessoas da participação cívica. Contudo, após a frustração inicial, a sensação de impotência diante da vantagem do candidato do PL começou a se transformar em euforia entre internautas, impulsionando uma forte mobilização para reverter o resultado no segundo turno.

Nesse período de engajamento coletivo, figuras como o deputado federal André Janones (Rede-MG) e o ator José de Abreu ganharam destaque. Janones intensificou a divulgação do canal ‘Exército de Lula’ no WhatsApp, que rapidamente reuniu milhões de seguidores, com o objetivo de engajar eleitores em torno da campanha. José de Abreu, por sua vez, viralizou ao cobrar posicionamentos de outras personalidades públicas nas redes sociais, utilizando frases como ‘não vai lutar contra o fascismo?’. Essa animação digital, impulsionada por memes e um tom mais emotivo, injetou um novo gás em uma campanha que, para muitos, parecia carecer de dinamismo.

Apesar do ímpeto mobilizador, Christian Dunker alerta para os perigos de estados de exaltação em massa. Ele explica que, quando a euforia se torna um fenômeno coletivo indiferente à realidade, marcado pela imprudência e pela violência, ela pode se transformar em ufanismo. Esse estado, segundo o psicanalista, representa um perigo para os indivíduos, grupos, instituições e para a própria comunidade, configurando um risco em nível clínico.

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